04 março 2013

O SOL GLORIOSO

O SOL GLORIOSO - Isaac Asimov ( excerto do livro “O Início e o Fim” - Edições Melhoramentos)

Vivemos da energia do Sol Glorioso, e tudo que vive o faz. As plantas verdes fazem uso da energia da luz solar para converter o dióxido de carbono, a água e minerais em hidratos de carbono, gordura e proteínas. Os animais vivem dos compostos de alta energia das plantas, ou de outros animais que comeram plantas. Toda a vida animal, inclusive a nossa, se alimenta, finalmente, das plantas verdes que fizeram uso da energia da luz solar para criar a provisão de alimentos.
A tecnologia do homem está também, baseada, na energia solar. O calor solar aquece desigualmente o ar e o mar, criando ventos e correntes oceânicas. O calor solar evapora o oceano, elevando quilómetros cúbicos de água ao espaço, na forma de vapor. Lá, a água, a seu tempo, condensa-se, e cai em forma de chuva; parte dela cai em continentes, onde se acumula em lagos a lagoas, alguma corre de volta aos oceanos na forma de rios e riachos. E os ventos e a água corrente têm estado a mover navios e a girar rodas desde os tempos antigos.
 A grande fonte de energia, feita pelo homem - o fogo - depende da queima de combustível no ar. Onde o combustível é lenha, o fogo representa a queima de compostos formados por plantas através do uso da energia da luz solar; onde é a gordura animal, são os compostos formados por animais a expensas das plantas; onde se trata de carvão ou de petróleo, o combustível é material que se formou por meio de plantas ou de animais há centenas de milhões de anos, partindo da energia dessa antiga luz solar.
Até o oxigénio da nossa atmosfera foi libertado da água pela energia solar usada pelas plantas na fotossíntese. (nota do autor deste blog)
 Alguma energia usada pelo homem não é de origem solar; o calor interno da Terra manifesta-se em fontes quentes; a rotação da Terra produz o movimento das marés; e os núcleos atómicos podem sofrer fissão, ou fusão, para produzir energia. Estas fontes não-solares de energia têm contribuído, por enquanto, muito pouco para as necessidades totais de energia da humanidade.
A principal fonte, neste momento (e durante dois séculos passados), é o carvão, apenas superado pelo petróleo - ambos obtidos do interior da crosta terrestre. Entretanto, o carvão é difícil de ser conseguido e transportado; ademais, sua escavação prejudica o meio ambiente. O petróleo é de abastecimento limitado, e o dia do seu desaparecimento não se encontra a muitos decénios no futuro. Tanto o carvão como o petróleo, ao serem queimados, poluem gravemente. Ainda que o carvão e o petróleo pudessem ser purificados e queimados com completa eficiência, de modo a não produzirem poluição química comum, eles, ainda assim, dão como desperdício dióxido de carbono, que não deixaria o calor escapar para o espaço, a isto aceleraria a tendência para o aquecimento pelo efeito de estufa que aquece lentamente a Terra, alterando-se o clima.
Se nos voltarmos para a fissão nuclear, haverá o grande perigo da poluição pela radiação. Se nos voltarmos para a fusão nuclear, com a qual o perigo da poluição é muito menor, teremos de enfrentar o facto de que os problemas de engenharia envolvidos na fusão se encontram por enquanto solução, e talvez requeiram decénios para serem resolvidos.
Podemos voltar-nos de novo para o Sol. A despeito de toda a energia solar que entra na produção do vento, das correntes aquáticas e das plantas verdes, mais de 90 % da energia que recebemos do sol destina-se simplesmente a aquecer a Terra. Este aquecimento é útil, naturalmente, pois mantém a temperatura da Terra suficientemente quente para tornar possível a vida. Contudo, se esse desperdício de calor da luz solar fosse utilizado para os propósitos do homem, ele acabaria sendo utilizado como calor (que é indestrutível), e a Terra continuaria tão quente como antes. A cada dia, a quantidade de luz solar que incide sobre a Terra, sem ser usada de alguma forma, a não ser para aquecer o nosso planeta, representa tanta energia quanto a humanidade utiliza em cerca de 3 anos. E mais: a energia solar a completamente não-poluente. Ela nem sequer introduz poluição pelo calor, porquanto o calor existe, nela, na mesma quantidade, façamos ou não façamos uso da energia.
 Que é que nos impede, então, de fazer uso da energia solar?. Três coisas:
1. energia solar é muito diluída. É muito abundante, mas espalha-se subtilmente por uma grande área. Colectá-la e concentrá-la até o ponto em que se torne útil para a tecnologia humana é coisa altamente complexa.
2. A energia solar directa varia em quantidade com a hora do dia . É baixa pela manhã e à tarde, e não existe à noite. As nuvens, a névoa e a neblina reduzem-lhe a quantidade, mesmo quando está no ponto máximo. Em muitos lugares, onde a indústria do homem é mais concentrada, a quantidade disponível do Sol é particularmente variável.
3. O homem tem sido extremamente preguiçoso quanto a solucionar os problemas de engenharia envolvidos no uso directo da energia solar, porque estiveram à sua disposição as técnicas mais simples de queima do carvão e do petróleo; e tem tido, igualmente, falha de imaginação, de modo que não tem visto as necessidades e as possibilidades com suficiente antecipação para fazer funcionar um dispositivo condicionador de ar que refrigerará a casa no tempo de calor. O Sol pode não inspirar confiança bastante para manter essa "casa solar" em funcionamento durante fases de céu encoberto, ou quando o tempo está extremamente quente, ou frio; mas poder-se-iam usar fontes de energia mais convencionais, a título de apoio, em quantidades pequenas com o correr do tempo. Então porque não se faz isto?
 Em primeiro lugar, faz-se. Casas equipadas para uso de energia solar são construídas aqui a acolá, particularmente no Japão; mas, no conjunto, apenas ocasional e experimentalmente. O custo inicial é elevado, e a indústria da construção reluta em investir dinheiro enquanto o público, não compreendendo claramente a poupança com o correr do tempo, ou não dispondo do indispensável capital, não se mostra disposto a comprar. Outros empregos de pequena escala envolvem alambiques em que a luz solar é usada para evaporar a água do mar, de modo que água doce se condense e se acumule; envolvem também fornalhas solares, nas quais a luz solar é reflectida por um conjunto de espelhos e focalizada num determinado ponto no qual a temperatura, então, se aproxima da temperatura da superfície do Sol.
 A energia da luz solar também pode ser usada para produzir electricidade - forma bem mais flexível a delicadamente útil de energia do que o calor. Algumas composições de metais, de quantidades cuidadosamente ajustadas, podem dar origem a uma pequena corrente eléctrica durante o tempo em que estiverem expostas a luz do Sol. Estas "células solares" tem sido usadas com grande êxito para fornecer energia a satélites artificiais. Imaginem-se séries de células solares alinhadas sobre telhados, ou sobre outras superfícies expostas à luz do Sol. A electricidade poderia ser produzida em quantidades contínuas, podendo fazer funcionar utensílios. Poderia ser armazenada em baterias, e usada para iluminar edifícios à noite. É certo que as células solares são caras e são também frágeis. No momento presente, a electricidade solar seria cerca de quinhentas vezes mais cara do que a electricidade produzida por meios mais convencionais. Observe-se, porém, que as células solares têm sido produzidas em pequenas quantidades, para fins especializados. Se se fizerem esforços para produzir células mais robustas, no estilo de produção em massa, o seu preço poderá descer drasticamente.
Poderíamos então imaginar gigantescas fábricas de energia baseadas numa vasta série de células solares, cobrindo amplas áreas dos sectores da Terra em que a luz do Sol é quase continua. Acontece que estes sectores são áreas desérticas, onde há pouca vida e onde a luz solar aquece inutilmente apenas areia nua e rocha. Cerca de 12,4 milhões de quilómetros quadrados da superfície da Terra apresentam-se na forma de deserto tostado pelo Sol. Só o deserto do Saara é tão grande como os Estados Unidos. As células solares, funcionando a apenas 10 % de eficiência, requereriam 48.000 km2 de luz solar (apenas 1/250 da área desértica do mundo) para suprir as actuais necessidades de energia do mundo. Nos Estados Unidos, existem amplos sectores do sudoeste que poderiam ser usados como fontes de energia solar. Naturalmente, isto exigiria grande investimento inicial. Pode ser que os xeques do petróleo abram o caminho. No presente, eles estão reunindo a riqueza do mundo em suas mãos, a troco do petróleo que possuem, e encontram-se um tanto confusos sobre o que fazer com essa riqueza. Certamente, as nações produtoras de petróleo do Médio Oriente têm consciência de que seus recursos estão minguando, e de que, por coincidência, suas terras contêm generosos sectores dos desertos do mundo tostados do Sol. Se tiverem visão razoavelmente ampla, financiarão as pesquisas e a engenharia que transformarão seus países em centros de energia solar. Por essa forma, eles conservariam seu poder económico, a ainda ajudariam o resto do mundo, que poderia utilizar a experiência do Médio Oriente para construir fabricas eléctricas em áreas desérticas de outras partes do globo. As fábricas eléctricas baseadas em desertos da Terra talvez não sejam a última instância. A atmosfera terrestre reflecte mais de metade da energia da luz solar, remetendo-a de volta ao espaço antes que ela atinja a superfície do nosso planeta, e ainda absorve parte da que resta. Ademais, os desertos têm suas tempestades de areia, e poderiam sofrer terramotos devastadores. O simples facto de que as fábricas eléctricas ficariam a superfície da Terra significaria que elas interfeririam nas formas de vida, inclusive a humana, e vice-versa.
Há sugestões, pois, no sentido de que os dispositivos colectores de energia sejam, algum dia, levados para fora da Terra e reunidos em vários satélites artificiais, orbitantes, distribuidores de energia solar. Tais satélites poderiam absorver luz solar, à noite, sem interferência e sem perca motivada pela atmosfera terrestre. A energia que eles absorvessem poderia ser projectada para a Terra na forma de micro-ondas (como as que são usadas no radar), e, na Terra, essas micro-ondas poderiam ser captadas por antenas gigantescas.
Há trinta anos, escrevi uma história descrevendo essas fábricas de energia circulando ao redor do Sol, nas proximidades da órbita de Mercúrio, onde a energia solar é cerca de dez vezes mais concentrada do que nas proximidades da Terra. (Os "satélites fábricas de energia" eram accionados por meio de robôs, na minha história.) O conceito era, então, pura ficção científica, e ainda o é hoje, mas no terço de século intermédio, ele chegou bastante perto da praticabilidade. Quando escrevi pela primeira vez aquela história, nenhum dos escritores de ficção cientifica sequer sonhava com satélites e fábricas espaciais, e os cientistas estavam apenas começando a aprender o modo de lidar com as micro-ondas. Dentro de outro terço de século, quem sabe...
O que precisamos é da habilidade dos cientistas e engenheiros para superar os problemas práticos existentes; da resolução dos líderes políticos para apoiá-los; da capacidade do povo, em geral, para compreender as potencialidades do uso directo da energia solar, bem como da sua boa vontade em ver o dinheiro dos seus impostos usado para tal fim; e, acima de tudo, da continuidade da estabilidade da ordem social mundial, da ordem económica e do sistema tecnológico. Precisamos de visão e de alguma boa sorte, também….

18 fevereiro 2013

Faturas Obrigatórias - Grave atentado ao direito à privacidade


Como programador apenas posso afirmar que é situação é ainda mais grave do que aquilo que é demonstrado no texto abaixo. Em próximo artigo farei a demonstração desta afirmação.

Texto escrito por António Martins, com quem concordo quase completamente. 

"Para quem não sabe, estou a trabalhar na área de software de gestão, e como tal, os meus últimos meses têm sido vividos um pouco à volta do ficheiro SAF-T.
Antes de mais, o que é um ficheiro SAF-T e a certificação de documentos:
Um software certificado coloca uma assinatura digital nas suas facturas, que, sem vos aborrecer com os detalhes técnicos, garante que a factura não é modificada depois de emitida.
O ficheiro SAF-T era, até 1 de Janeiro de 2013, um ficheiro de auditoria, que era fornecido ao inspector das finanças nos (muito raros) eventos de inspecção das finanças. Este ficheiro sozinho garante que a empresa não foge aos impostos (cruzando com dados multibanco e bancários), não altera os valores e dados das suas facturas e é ainda possível conferir mais uma série de dados. Os ficheiros SAF-T são gerados no momento, e podem ser gerados para períodos de tempo diferentes (1 ano, 1 mês, etc)
O que está dentro de um ficheiro SAF-T?
Os dados gerais da empresa (morada, nome, nif, conservatória, etc)
Dados de todos os clientes da empresa (Nome, morada, contacto telefónico, email, nif)
Informação de todos os produtos ou serviços vendidos pela empresa (referência, designação do produto)
Dados de facturação (para cada factura: data, hora, cliente e nif do cliente, produtos vendidos, valor, valor de iva, etc, etc)
O que acontecia até 1 de Janeiro ? Muitas empresas usavam os talões e vendas a dinheiro, cujo cliente é "consumidor final" e o nif é 99999990, ou seja, informação genérica.
O que aconteceu em 1 de Janeiro? Muito:
1. Toda e qualquer transacção tem de ter emissão de factura. Ou seja, os dados da factura passam para o saf-t com o nº de contribuinte e nome do cliente. Existem as facturas simplificadas que podem ser feitas a um "consumidor final" mas podem ser usadas em apenas casos restritos.
2. Todos os SAF-T de todas as empresas nacionais são enviados para as finanças mensalmente.
Vou dar um exemplo:
O Sr. Foo acordo num belo dia de férias de Verão. Toma o pequeno almoço no café da esquina (factura 1) e vai ali à sede do partido X pagar a sua cota mensal (factura 2). Passa pelo templo da sua religião e paga o dízimo (factura 3). Almoça no seu restaurante favorito (factura 4), vai ao cinema ver um filme (factura 5), compra 2 "brinquedos" na sexshop da esquina (factura 6) e janta uma mariscada á beira mar (factura 7)..
No fim do mês, as 7 empresas envolvidas no dia do Sr. Foo vão enviar o ficheiro SAF-T para as finanças, e lá vai a informação:
O que o Sr. Foo comeu nessa manhã, a que horas e em que local.
Qual a sua filiação política, e onde costuma pagar as cotas.
A sua religião.
O que almoçou, a que horas, e em que local.
Que viu o filme Y.
Comprou "brinquedos" na loja tal.
Jantou uma mariscada, a que horas e em que local.
Isto num dia. Ao fim de um mês, passam a ter os hábitos de cada cidadão, ao fim de um ano? Têm na mão a vida de uma pessoa. Querem mais? Dois informáticos acabados de sair do curso, com acesso a estes dados rapidamente conseguiam fazer cruzamento de dados. Cruzando por exemplo, o Sr. Foo com a sua esposa, Sr.ª Boo:
Tomou o pequeno almoço com a esposa, pois foram 2 cafés e 2 croissants, isto porque a Sr.ª Boo comprou a "Maria" 30 minutos depois no quiosque a 50M do café. (todas as transacções têm de ter uma factura, tudo é seguido)
Ela não pagou cotas políticas ou religiosas, o Sr. Foo está nisso sozinho. (cruzamento das facturas do Sr. Foo e Sr.ª Boo)
Não almoçaram juntos. Almoço foi 1 menu MacDonalds do Sr. Foo e a Sr.ª Boo tem uma factura de almoço no mesmo dia a 150km de distância. (cruzamento das facturas do Sr. Foo e Sr.ª Boo)
O filme era sobre Che Guevara. Isto, aliado á filiação política e religiosa torna o Sr. Foo alguém a seguir no futuro. (Descrição dos artigos vai no ficheiro SAF-T)
A Sr.ª Boo continua com facturas a 150km de distância, os "brinquedos" e a mariscada para 2 ao jantar sugerem uma amante
E se o Sr. Foo fosse o líder da oposição? Ou dono de uma empresa a concorrer num negócio do estado? Ou o presidente da república? Ou juíz num processo contra um deputado do partido do governo? Sou apenas eu que vê o PERIGO no envio de todas as facturas emitidas em Portugal, mensalmente para o estado?
E quem tem estas bases de dados? É uma empresa privada? Quem está à frente disto, quem vai garantir a privacidade dos dados? Alguém acorde por favor, alguém nos defenda!
Os meus receios não ficam por aqui.O ficheiro SAF-T é guardado em plain text! Um curioso informático que ligue o wireless no centro comercial quando a farmácia está a enviar um saft apanha isto (parcial, o ficheiro saf-t inclui, por exemplo, os dados do customer 149):
SystemEntryDate>2012-12-14T19:27:53
CustomerID>149
ShipTo />
ShipFrom />
Line>
Isto não é só ridiculo como grave! Não vi um deputado falar sobre isto. Não vi ninguém preocupado com a Constituição!"

23 outubro 2012

A mudança é um processo revolucionário

A mudança é um processo revolucionário, não é simplesmente uma evolução na continuidade. É na verdade um processo comum na vida, quer seja considerada do ponto de vista biológico, quer seja estudada do ponto de vista das organizações como as empresas. Podemos aplicar às organizações um tratamento teórico similar à 5ª teoria de Darwin (a teoria da seleção natural)1 conjugado com as leis do "acaso e da necessidade".
A mudança é sempre uma alteração radical de paradigma, seja ele :
  • organizacional, 
  • processual,
  • informação - conhecimento
  • informação produtiva - tecnologia
Precisa de condições ambientais ou de enquadramento, para ter sucesso, mas apenas como condições necessárias e não suficientes. Tem como condição necessária a pré-existência de tecnologia adaptada às novas realidades,  ou funcionalidades internas adaptáveis a essas mesmas novas realidades .

Esse processo revolucionário nas sociedades até pode ser despoletado por uma ideologia política, por uma corrente científica, por uma crença de caráter religioso, ou por uma ação individual de alguém com carisma, mas isso apenas significa que o ambiente já era propício e que o modelo de sociedade existente antes da revolução já apresentava falhas e incapacidades principalmente ao nível da adaptação rápida.

Para que o processo revolucionário se complete com sucesso ou seja para que o novo paradigma inicie e sobreviva substituindo o anterior concorrem em geral duas linhas de condições :
  • Acontecimentos iniciadores ou gatilhos
  • Ambiente interno e externo propícios antes e depois dos acontecimentos iniciadores.

1 - Pergunto-me: 
  • deve-se considerar um processo revolucionário como um processo determinístico?
  • ou deve-se considerar como um processo probabilístico? 
E se for probabilístico (como eu penso) é perfeitamente ao acaso ou podemos considerar algumas regras como as regras de evolução de sistemas complexos que evoluem coexistindo num determinado período temporal? 
O conceito de seleção natural (a que eu chamo Darwiniana por ter sido Charles Darwin que primeiro verificou e sistematizou esse tipo de evolução ao estudar a evolução das espécies ) parece-me que se pode aplicar a sistemas complexos (biológicos ou abióticos) que de qualquer modo interajam em ambientes competitivos. 
Poderemos ver como os trabalhos de Darwin influenciaram muitas áreas da ciência num resumo em que se apresentam argumentos de muitos académicos no artigo : http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,darwin-200-anos-depois,320094,0.htm



A alta classe capitalista e a classe política

Violação do poder democrático pela classe política e pela alta classe capitalista1

Estas duas frações da sociedade estão de momento unificadas sob o domínio da classe política, sendo muito difícil senão quase impossível encontrar na alta classe capitalista elementos que não pertençam à classe política.

Como já foi demonstrado em artigo anterior as empresas de capital disperso em bolsa ou seja de acesso público, muitas delas monopolistas2, são governadas por representantes eleitos em assembleia geral de acionistas onde aqueles com menos de um mínimo de ações nem sequer têm direito de voto .

( primeira violação do poder democrático na gestão do capital: nem todos podem votar apesar de todos serem detentores de capital)

Em geral a soma das ações dos membros dos conselhos de administração é muito inferior a 50% sendo valores típicos cerca de 30%.

( segunda violação do poder democrático na gestão do capital: falta de representatividade )

Em geral decidem em causa própria como nos seus próprios salários e regalias, como por exemplo: auferirem de uma remuneração baseada apenas nos lucros operacionais de curto prazo sem que fiquem acautelados os interesses de longo prazo da empresa.

( terceira violação do poder democrático na gestão do capital: autocracia sem prestação real e global de contas )

O enquadramento legal do funcionamento e da governação das empresas monopolistas é inadequado, confuso e de difícil fiscalização, em especial se esta for feita pelas agências reguladoras.
Estas agências são organismos de estado com estatuto de autarquias, com receitas próprias, com governo próprio, com estatutos próprios, com vínculos e regras laborais fora do âmbito da função pública, mas sem estatuto complementar de magistraturas, de modo a possuírem um controlo interpares, que nos estados do mundo ocidental é inexistente. Estas agências estão por isso sem o controlo direto dos cidadãos. Por essa razão as agências ( em Portugal na maioria chamam-se “Autoridades” ) são muito ineficazes e permeáveis a influências externas, em particular aos projetos ideológicos da classe politica.
Desse modo os objetivos de governação das empresas monopolistas ficam fora de controlo e confundem-se com os interesses pessoais e de grupo dos seus conselhos de administração, muito distantes da função da empresa como um dos elementos de base da sociedade e do estado.

(Assim a governação das empresas pela classe política configura a quarta violação do poder democrático na gestão do capital : totalitarismo baseado ideologicamente no endeusamento do dinheiro ou capital financeiro )


Um estado que funcione de forma sustentada seja ele estado-nação ou outro, para estar bem estruturado deve assentar pelo menos nos seguintes pilares :
  • cidadãos
  • famílias
  • comunidades não familiares ( associações culturais, religiosas, desportivas, e demais comunidades estruturadas das sociedades modernas)
  • empresas
  • enquadramento normativo dentro dos limites de um estado de direito

Devido à concentração e centralização do capital3 as empresas monopolistas apesar do seu número ser inferior à centena, no seu conjunto representam um peso na economia de mais de 10% do PIB

Quando as empresas monopolistas nalguns estados ficam sob o domínio exclusivo da classe política e à margem do controlo dos mecanismos de supervisão estatal rapidamente enveredam por uma atuação que despreza e abala os pilares fundamentais do estado, desestabilizando a economia e atacando todas as outras classes de forma roubar-lhes os poderes económico e político.
Tendo em atenção que atualmente as empresas monopolistas são multinacionais que atuam no mercado global a sua ação maléfica abrange muitos estados em simultâneo. É este o caso das multinacionais a operar no mercado Português.
A classe política que é apenas uma pequena percentagem da sociedade, tomou de assalto quatro dos cinco pilares do poder de estado :
- Poder executivo
- Poder legislativo
- Poder judicial
- Poder militar
E aliada ao poder financeiro da alta classe capitalista domina o quinto pilar : o poder económico.
A classe política é a verdadeira classe parasita e opressora pois não produz quaisquer bens e serviços úteis e vive às custas dos impostos obrigatórios lançados sobre os cidadãos das outras classes. É ainda mais perniciosa do que foi a nobreza feudal.
Por isso é que é urgente extingui-la permitindo a cada cidadão dar a sua contribuição para a administração da coisa pública.

1É habitual classificar como classe capitalista o conjunto dos membros de uma sociedade com modo de produção ou funcionamento da economia do tipo capitalista, que detêm a titularidade do capital e são remunerados em função proporção de capital que é sua propriedade, independentemente de ser um grande montante como na alta classe capitalista ou pequeno montante como nos proprietários de micro empresas comerciais, industriais ou agrícolas.
2Designam-se aqui por empresas monopolistas aquelas cujo volume de bens /serviços produzidos seja maior ou igual a 0,1% do PIB e tenham um mercado alvo interno com uma taxa de dispersão populacional/geográfica com menos de 10 concorrentes por cada cem mil habitantes
3Embora seja uma terminologia usada principalmente pelos seguidores das ideologias Marxistas pode ser usada com rigor cientifico desde que o seu âmbito seja corretamente definido e enquadrado nas situações em que é aplicada. Ver por exemplo http://www.eumed.net/libros/2008a/372/CONCENTRACAO%20E%20CENTRALIZACAO%20DE%20CAPITAL.htm
Concentração do capital significa que a propriedade ou titularidade de uma cada vez maior fatia de capital está nas mãos de um número cada vez menor de elementos da sociedade.
Centralização do capital significa que a gestão global dos capitais está também num número cada vez menor de elementos dentre aqueles que são proprietários

11 julho 2012

Mudança e Diversidade


Nos grandes processos de mudança em qualquer tipo de organização: seja um ecossistema completo, seja uma simples empresa, constata-se que há sempre uma grande alteração da diversidade em termos de componentes internos da organização enquanto se processam as alterações na sua estrutura. Para se entender as razões dessa alteração será necessário debruçarmo-nos primeiro sobre a evolução das organizações.
Todas as organizações vivas existem num ambiente de competição por recursos escassos. Isso implica concorrência ou seja, há elementos que sobrevivem íntegros e outros que morrem ou mudam.
Num ambiente estável, são condições de sobrevivência, características como:
  • maior tamanho,
  • maior rapidez,
  • maior eficiência no uso dos recursos (no fundo maior eficiência económica)
  • maior inteligência ou maior versatilidade ou multifuncionalidade,

A adaptação evolutiva mais frequente nos seres vivos ou nas organizações é o crescimento. Organizações maiores têm ganhos de “economia de escala” e ficam menos vulneráveis ao ataque de concorrentes e predadores. No fundo por aplicação da “lei dos grandes números”, as consequências dos erros são estisticamente menos destrutivas. Diz-se que os grandes seres ou as grandes organizações têm mais inércia, resistindo a qualquer condição de mudança.
Contudo nem sempre isso é acompanhado de preservação da rapidez de reação ou de multifuncionalidade. Na maior parte das vezes, à medida que os seres ou organizações se tornam grandes e conseguem posições de monopólio ou de super predadores, reforçam-se apenas algumas das características por aumento da especialização, perdendo-se funcionalidade na maioria maioria das outras. Isto corresponde a uma diminuição da diversidade interna. Os seres ou organizações estão perfeitamente adaptados e respondem com eficácia às ameaças e desafios conhecidos.
No entanto o seu comportamento perante ameaças desconhecidas conduz muitas vezes a respostas desadaptadas e frequentemente com consequências fatais para a sobrevivência.
É interessante também notar-se que quando não existe competição externa fica exacerbada a competição interna. Quando a concorrência interna se torna a competição dominante, começam a aparecer os custos dessa competição refletindo-se na eficiência global, anulando muitas vezes as vantagens da economia de escala conseguida pelo aumento de tamanho. Nestas circunstâncias ser grande é mais caro ou consome mais recursos.
Isto é o caso típico dos estados (  suas empresas e organizações) e dos monopólios internacionais, cujos custos por peça ou por operação de serviços estão muito longe do valor otimizado que se consegue por exemplo nas PME. Isto dá razão à “vox populi” : “- Um euro na mão particular vale muito mais do que na mão pública”.
É um facto curioso que quer os estados quer as empresas monopolistas (em especial as internacionais de capital disperso ou público em terminologia americana ) são governados pela mesma classe de pessoas: a “Classe Política”
Quando uma organização perde eficiência económica e diversidade, fica vulnerável às mudanças do ambiente económico ou social (por exemplo mudança de moda ou mudança de ciclo tecnológico). Nessas circunstâncias algumas empresas e organizações iniciam por razões internas ou externas um processo de mudança estrutural com:
  • Emagrecimento - diminuição de postos de trabalhos e estrutura orgânica mais simplificada e polivalente.
  • Deslocalização – colocação noutros países ou noutras localidades do mesmo país a produção de certos bens e serviços de modo a minorar o custo por peça ou por operação.
  • Fracionamento - Divisão de uma grande empresa monopolista em várias empresas de menor dimensão que passam a atuar de forma concorrencial nos mesmos mercados.
  • Diversificação de mercados – colocando força de vendas a atuar em novos mercados fora da sua área geográfica
  • Diversificação de produtos – produzindo novos produtos ou novos serviços em função das preferências de consumo ou disponibilidades tecnológicas.
Em suma: adaptações que aumentam a diversidade nas organizações permitindo-lhes uma maior eficiência e uma vantagem na luta pela sobrevivência.
Contudo existe uma situação designada por crise em que se verifica uma extinção em massa de empresas ou organizações com perda de diversidade global tanto em número de produtos e serviços como em número de empresas. Isso não se passa apenas nas organizações económicas ou sociais, passa-se também nos seres vivos e nas suas organizações: os ecossistemas.
As crises são quase sempre derivadas de condições ambientais :
  • novas tecnologias
  • novas preferências de consumo poluição do sistema económico, social e político
  • recentemente poluição do sistema financeiro como sistema que garante a produção e circulação dos símbolos de valor ou moeda
  • catástrofes naturais
  • guerras
  • falhas globais na renovação de gerações
  • falhas globais na renovação e reprodução de capital
A recuperação de uma crise demora em geral muito em termos de ciclos biológicos ou económicos e na realidade muitos anos de calendário. Felizmente para o nosso país que penso que a atual crise terá uma recuperação bem mais rápida do que a da época da extinção dos dinossáurios.