14 junho 2017

Aprendizes de feiticeiro - Parte 1


Dissertação sobre certezas previsões e profecias (parte 1)

Existe uma questão ainda sem reposta, que preocupou e até atormentou os espíritos mais brilhantes dos últimos milénios:

- O universo é objetivo ou projetivo?

 Ou seja, todos os factos da sua existência são determinados por causas internas já conhecidas ou passiveis de serem deduzidas a partir das propriedades gerais ou, em alternativa, pelo menos um deles foi é ou será determinado por  um desígnio desconhecido, eventualmente externo?

Primeira opção: o universo é objetivo.

Os acontecimentos regem-se por pelas leis do acaso e da necessidade. 
(Vide: Jacques Monod - O acaso e necessidade, comentários disponíveis em: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/23614/mais-gostaram; )

A visão determinista do universo.
Se os acontecimentos no universo se regem só por leis de necessidade, isto quer dizer que podemos estabelecer para eles um nexo causal único e uma linha evolutiva perfeitamente determinada. Ou seja, podemos ter  a certeza absoluta sobre as suas propriedades e sobre a sua história passada, presente ou futura.
Os acontecimentos são determinados apenas por leis de necessidade ou princípios de conservação das suas propriedades globais e das propriedades individuais dos seus elementos.
Como exemplo deste tipo podemos dar o caso de duas bolas presas dentro de cubo oco, que interagem apenas entre si e com as paredes, segundo as leis da mecânica clássica: há conservação da energia total, conservação da massa total, conservação do momento total e a velocidade é sempre não relativística (sempre muito menor do que a velocidade da luz) .
Se conhecermos as propriedades num dado momento ( snapshot ) poderemos calcular sempre o seu valor passado, presente ou futuro. Este tipo de universo é por definição infinito e ilimitado pelo menos na linha do tempo. Mas pode ser finito e limitado em quaisquer outras propriedades.
Considerando estes princípios primeiros: ser objetivo e, infinito e ilimitado na linha do tempo, não se pode justificar qualquer possibilidade de interferência externa com os argumentos cosmológicos  de S. Tomás de Aquino, como por exemplo:  a necessidade de um primeiro motor.
O universo é o que é por si só. Não precisa nem contempla interferências externas.
Esta visão foi muito popular no fim do sec. XIX e na maior parte do sec. XX. Contudo, as descobertas cientificas dos últimos 50 anos invalidam muitas das suas premissas e praticamente todas as conclusões das diversas teorias deterministas.
Aos cálculos necessários para saber o estado desse universo (ou de alguns dos seus elementos), em qualquer ponto espaçotemporal, chamamos cálculo de certezas,  que matematicamente representa a resolução de um sistema de N equações a N incógnitas. 
Isto quer dizer que se pode comprimir  (zipar) toda a informaçao do universo num conjunto finito. ou dizendo de outro modo, podemos ter uma Teoria do Tudo
Mas um universo objetivo pode reger-se também por leis do acaso
Ou seja, o comportamento individual dos seus elementos, pelo menos na linha do tempo, obedece às leis das probabilidades.
Neste caso o conhecimento das suas propriedades num dado momento (snapshot), é insuficiente para calcular o seu valor exato, noutro momento qualquer.
É o caso da física dos sistemas de muitos corpos (física estatística) como por exemplo o caso de um número muito grande ( mas finito ) de bolas dentro de um cubo oco, em que não se pode saber a velocidade individual de todas as bolas num dado momento, mas pode saber-se a sua velocidade média. Outro caso é ainda a face da moeda que fica visível numa sucessão suficientemente grande de lançamentos de moeda ao ar.
Os acontecimentos na linha do tempo podem ser calculados como uma função de probabilidade e o seu cálculo chama-se previsão que é afetado sempre por alguma dose de Incerteza.   Mas, mesmo assim, o universo continua a ser o que é por si só sem precisar ou contemplar interferências externas.
 
Segunda opção: universo é projetivo

Os elementos no seu conjunto ou mesmo individualmente perseguem um objetivo e os acontecimentos conjugam-se para a respetiva realização.

Existe teleonomia: (citando resumo do artigo de Cruz, José Luis Brandão, disponível em http://hdl.handle.net/10400.3/1425)

“Como acontece no processo de evolução dos seres vivos, em certos domínios da física, as transformações tornam-se mais difíceis de compreender, pois a emergência de novidades não parece susceptível de ser explicada pelo modelo determinista das suas condições iniciais ou por factores de ordem ambiental. A ligação da noção de tempo à persistência com que um traço se mantém nas progressivas flutuações a que um sistema está sujeito, e a noção de teleonomia, ligada ao mecanismo auto-regulador dos ser vivos, que se enriquece com o próprio jogo das suas transformações, alargou a influência do paradigma da evolução a certos fenómenos do mundo físico. Prigogine e Piaget debatem o fenómeno da irreversibilidade da matéria e da vida como um processo de aperfeiçoamento e não de aniquilamento.”

Havendo projeto ou objetivo a perseguir, coloca-se a questão sobre quem, ou o que, controla o rumo dos acontecimentos.
Por definição, governar ou estabelecer um rumo para a sequência os acontecimentos, significa que a função global que os descreve tem de incluir além do acaso e da necessidade, uma função adicional que espelhe a influência do resultado (acontecimentos de saída) nas causas (acontecimentos iniciais ou de entrada) . A esta função, chamamos função de realimentação ou de retroação.
É essa função que permite ao condutor corrigir o rumo de uma viatura para chegar a um destino pré-determinado. Há uma comparação permanente entre o resultado esperado e o resultado obtido, que determina os valores da correção impostos como entrada pela função de retroação.

Há duas grandes classes de visão do universo projetivo:

- O objetivo geral e muitos objetivos parciais são conhecidos e determinados por uma entidade externa ao próprio universo, que pode ou não revelá-los à humanidade.
- O objetivo geral e mesmo muitos dos objetivos parciais, não são totalmente conhecidos (apenas podemos conhecer as tendências locais no espaço e no tempo) e são determinados apenas por  causas ou entidades internas do próprio universo.
A primeira visão é a visão religiosa de criacionistas ou outros fiéis de qualquer credo. Eles consideram que existe pelo menos uma entidade externa ao universo que domina os Operadores de Criação, Modificação  e Aniquilação, de qualquer dos componentes desse universo (ou do seu todo) e das suas propriedades. A esta entidade chamam Deus. Àqueles humanos escolhidos para revelar à humanidade a vontade ou o projeto de Deus, chamam profetas (que quase sempre apresentam acontecimentos futuros impossíveis de validar no seu tempo e, raramente explicações firmes, completas e coerentes, sobre o passado ou o presente).   Não vou dissertar sobre estes profetas ou sobre as suas revelações. Isso está fora do âmbito da ciência e a sua aceitação pertence à esfera privada de cada ser humano.
A segunda visão, mesmo atualmente, é formada por um conjunto de conjeturas, quer nas premissas iniciais, quer nos traços identificadores de rumo disponíveis e suscetíveis de análise. Essas conjeturas são específicas de algumas ciências, como por exemplo:
-  Na cosmologia - a conjetura do universo holográfico
-  Na cosmologia - a conjetura do Big Bang
- Na física – A conjetura de que a velocidade da luz no vazio foi e será sempre constante e igual à velocidade da luz medida atualmente.
- Na física – A Teoria  da relatividade e a Teoria Quântica
- Na biologia – a conjetura de que os seres vivos evoluem no sentido da maximização da organização e no sentido do aumento do controlo do ambiente envolvente através do aumento da inteligência.
Muitas destas conjeturas são consideradas mesmo pilares da ciência e só as apresento aqui como meras conjeturas, porque ainda não conseguimos provar a sua validade fora do âmbito local da região espaçotemporal  do presente e do passado conhecidos.

Segundo esta visão, os cálculos para determinar o estado do universo ou de qualquer dos seus elementos no âmbito “local” podem ser também considerados previsões. No entanto penso, que podem ir muito mais além das simples previsões estatísticas.

Quando consideramos apenas o âmbito espaçotemporal local, de uma civilização de seres inteligentes que tenha desenvolvido tecnologia e máquinas cibernéticas, como fazem os seres humanos atuais, podemos aceitar a conjetura de Arthur C. Clarke (3ª lei de Clarke) que diz que: “uma tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”

A palavra e a noção de magia são usadas neste artigo não como sinónimo da arte circense do ilusionismo, mas no sentido que lhe é dado no artigo escrito no Blog, denominado  “A era da magia“ , http://penanet.blogspot.pt/2013/11/a-era-da-magia.html .

Assim considera-se magia toda a ação que, utilizando apenas uma quantidade mínima de informação e uma quantidade ínfima (desprezável) de energia, provoca uma alteração substantiva no estado energético ou organizacional de um sistema físico cibernético. Alteração essa, que deverá ser em termos de energia ou informação, muitas ordens de grandeza maior do que a causa que lhe deu origem. Para isso acontecer, a ação deverá ser aplicada a uma parte do universo (pelo menos local) que esteja organizada como uma máquina de processar pelo menos informação e energia, com um conjunto de estados que possa ser determinado de forma cibernética (vide “Cibernética http://penanet.blogspot.pt/2013/11/a-era-da-magia.html ” publicado neste Blog). Essa evolução de estados rumo a um futuro é pré-determinada pela ação inicial, e atinge-se por autorregulação.

Contudo, há uma classe de acontecimentos que embora implique o fornecimento mínimo de informação (basta um simples bit), e normalmente a adição de uma quantidade ínfima de energia, a um sistema não cibernético, que provocam neste uma alteração de estrutura, de estado energético e de entropia interna, através de uma reação em cadeia não controlada. Essa classe de acontecimentos chamam-se explosões (Bang) e não são nenhuma espécie de magia. Se ocorrerem numa máquina cibernética, o resultado final da explosão é a aniquilação ou morte da máquina cibernética, sendo o produto da explosão regido pelas leis do acaso e necessidade, válidas no domínio espaçotemporal final.

À ação de determinar o  futuro de um sistema cibernético chamamos profecia e ao agente da ação chamamos profeta.

Os profetas determinam o futuro por meio de magia agindo sobre sistemas mágicos cibernéticos. Todos os acontecimentos, subsequentes à ação mágica inicial, conjugam-se para atingir um estado futuro predeterminado.
A tendência verificada na história da evolução dos seres vivos é: estes tendem a maximizar a organização do seu ambiente interno e do ambiente externo envolvente, dentro do seu horizonte alcançável, à custa de um aumento global da desorganização (ou aumento da entropia universal).
O emergir da inteligência e posteriormente o desenvolvimento de uma civilização tecnológica, contribuem decisivamente para o alargamento do horizonte alcançável e, por conseguinte para o aumento da porção de universo organizado. Sendo os seres vivos máquinas cibernéticas, possuidoras de “memória, invariância reprodutiva e morfogénese autónoma”, todo o ambiente envolvente (ecossistema) tende a organizar-se como uma máquina cibernética de grandes dimensões.

Até onde a ciência pode comprovar, o desígnio (a teleonomia) dos seres vivos e do ambiente por eles criado, é: aumentar a organização de uma forma autocontrolada (diferente da dos processos de cristalização).

Nesta segunda classe  de visões do universo, este desígnio é derivado de propriedades universais internas conjugadas com leis do acaso e necessidade. O universo é projetivo por si mesmo sem necessitar de interferência externa para criar ou controlar a evolução do projeto atual. Ese objetivo é: maximizar  a velocidade global   do aumento da entropia. (no estrito cumprimento do 2º princ´ipio da termodinamica)
Todos os factos observáveis nos tempos atuais, apontam para estarmos no início da criação de um domínio local cibernético de uso geral, no nosso universo alcançável.

Assim, os seres humanos atuais, como operadores dessa máquina cibernética, têm de dominar as técnicas da magia necessária e das profecias possíveis.

E, na realidade, o homem comum atual, mesmo de forma inconsciente, comporta-se como um mágico efetuando rituais de palavras, gestos e outras ações, que “obrigam” a máquina envolvente a executar os seus desígnios. Quando dizemos ao telefone do automóvel as palavras mágicas “ Ligar casa!” e o aparelho obedece, qual porta da gruta obedecendo ao “Abre-te sésamo!” do Ali BáBá, estamos a usar magia, pois pouquíssimos de nós compreenderão o funcionamento interno de um telemóvel e muito menos o funcionamento interno de um programa interpretador de voz. Sabemos o ritual, conhecemos as consequências, mas em geral para a maioria, a máquina  cibernética que operam não passa de uma caixa preta mágica.

No entanto, todos nós adultos ou mesmo crianças, temos “super-poderes” capazes de sujeitar à nossa vontade, quase sem esforço,  máquinas muito complexas,  e …)

….Algumas delas manobram quantidades de energia gigantescas, que se forem mal usadas podem causar danos irreparáveis no domínio local onde vivemos….

Somos aprendizes de feiticeiro.

 (Na parte 2 deste artigo, analisam-se as infraestruturas que suportam a máquina cibernética global, que está a ser construída)

31 janeiro 2017

A doença do sr. Trump

Muitos comentadores notáveis ou anónimos, quando confrontados com as declarações e com a prática passadas e presentes do sr. Trump ou com as ameaças que ele faz ao futuro, dizem que o personagem deve estar doente. 

A disfunção mais diagnosticada é a cretinice (burrice ou retardamento mental). Muitas apontam-lhe taras sexuais, alguns atribuem-lhe xenofobia e outras psicoses relacionadas. Poucos lhe diagnosticam ser intrinsecamente mal intencionado e ainda menos o consideram apenas um jogador viciado, que joga com as frustrações de uns contra as expectativas dos demais.

Penso que os diagnósticos peçam por defeito, pois apontam para doenças pouco perigosas, pouco contagiosas, ridículas e mesmo quase benignas .

A mim, pelo contrário,  parece-me que o homem tem problemas sérios, altamente contagiosos e perigosos para ele e para o mundo, com o potencial de gerar a mais grave epidemia dos últimos 100 anos.

Não o vejo como um  pateta alegre semelhante ao J W Bush, que cometia gafe sobre gafe, exibia a sua ignorância saloia e com um copo a mais não passava além da falta de cultura e de sensibilidade de um rancheiro provinciano a quem as cunhas familiares e tricas da política, promoveram a presidente do maior país capitalista do mundo. Não! Eu não vejo assim o sr. Trump!  Estou muito longe de o achar um palhaço caricatura de presidente.                                           

O meu diagnóstico é que o personagem sofre de uma forma grave do síndrome de Ubris (Ubrius em Latim), um complexo messiânico, que afeta uma grande parte da população sénior do mundo, num grau tanto mais elevado quanto maior for a posição hierárquica ou o poder de que dispõe.
https://renovacaomedica.wordpress.com/2012/10/08/sindrome-de-hubris-qualquer-semelhanca-nao-e-mera-coincidencia/

Todos os grandes ditadores da era moderma, como Hitler, Salazar, Perón, Estaline, Kim Il Sung, Sadam  Hussein, Kadafi, ou os imperadores  da antiguidade clássica como Nero e Calígula ou reis de tempos mais recentes como Henrique VIII e Luis XVI  ou mesmo líderes religiosos recentes, apresentavam estádios avançados dessa doença.

O grande perigo desta doença como disse atrás: é ser altamente contagiosa, com uma forma de contágio que não se fazendo por via biológica (bactérias e vírus), não pode ser  combatida com antibióticos nem vacinas.

Esta doença difunde o ideal simples maniqueísta, de que o mundo está dividido em duas classes: os bons e os maus, que se digladiam eternamente, sendo os bons os seguidores do doente e os maus todos os outros.

Os bons, segundo esses doentes, têm a missão messiânica de salvar os escolhidos e de eliminar a maldade do mundo. Às vezes, num raro assomo de misericórdia, lá admitem que por intermédio do arrependimento, da conversão e da pública demonstração da sua submissão, alguns escolhidos de entre os maus, são beneficiados com o prémio da salvação.

Para comprovar o seu merecimento a uma salvação já neste mundo e alcançar as graças do mundo espiritual ou a veneração da História, os bons quais super-heróis, têm de ser os paladinos esforçados dos ideais, práticas e propriedades do doente e do seu séquito, num respeito rígido pela hierarquia social instituída.

Estes ideais simplistas, calam fundo nas sociedades com altos níveis de frustração e com classes médias acossadas materialmente, a perder representatividade económica e ideológica na sociedade  e vazias de projetos para o futuro próximo.

Assim se difundem facilmente o ódio social: de classe ou religioso, a solução dos conflitos pela violência e o  terrorismo maquiavélico, em que a suposta bondade dos fins, justifica o uso de todos os meios, mesmo aqueles que atentam contra os direitos humanos mais básicos, esforçadamente conquistados pela humanidade, ao longo da sua evolução civilizacional.

O verdadeiro perigo desta doença não está em afetar os líderes e uma grande parte da população sénior. A gravidade da doença é que há grandes franjas da população jovem que também podem ser infetadas por este complexo messiânico e por isso são facilmente arregimentadas para atuar e morrer cegamente, como soldados, como heróis ou como mártires, ao serviço de interesses materiais ou ideológicos de classes, hierarquias e eminências pardas, que gravitam na esfera do doente principal. Mas infelizmente não morrem sozinhos. Levam consigo muitos inocentes na voragem das ações motivadas pela sua loucura: basta olhar para a história do  Sec. XX.

O mundo está sob a espada de Damócles e  esses doentes estão a fazer tudo para rebentar o fio que a suspende.

Este problema num mundo globalizado exige uma resposta global. Todos os cidadãos do mundo têm a obrigação defender a sanidade mental da humanidade,  à luz do legado do passado, da vida do presente e da esperança no futuro.

Assim a contestação perseverante e organizada ao Trump, ao “trumpismo” e aos “trumpistas”, assume a maior importância no momento atual.

É muito importante a contestação dos artistas, seja ela direta, seja através do humor, da caricatura, da música ou de opinião nos “ mass media”, escritos ou digitais,  é mesmo a primeira barreira de defesa da liberdade.

A segunda barreira é a contestação pública organizada, especialmente a de rua.

A terceira barreira é também organizada e é a contestação através das organizações profissionais: laborais e patronais.

A quarta barreira é o litígio jurídico, na justiça dos USA e nos tribunais e outras instâncias internacionais sempre que seja infringido o estado de direito ou o direito inter-estados.

A quinta barreira é a dos cientistas especialmente os da medicina e psiquiatria que devem coligir as provas materiais da insanidade mental do personagem, da sua incapacidade para governar e pedir a sua interdição através dos órgãos de justiça, do parlamento e do senado.

A sexta barreira é a solução militar que já foi usada contra personagens anteriores, à custa de sangue suor e lágrimas, mas que neste caso, pela sua extrema perigosidade, tem de ser usada com a máxima prudência, sempre à luz do direito internacional e deve ser liderada pela ONU. E, além disso, exige a adesão de uma larga maioria dos membros das Forças Armadas dos USA, pois atuar no momento errado ou carregar no botão errado, pode desencadear o Apocalipse e extinção da Humanidade.

Estamos à beira do abismo e não podemos dar um passo em falso. Os trumpistas sabem disso e por essa razão vão jogando com as nossas limitações, pois eles não têm nada a perder: são doentes insanos com um complexo messiânico, que pela fidelidade à sua crença, creem ter garantida a salvação.

07 julho 2015

Eu sou OXI! E agora Grécia?

A propósito de uma publicação em http://aformigadeesopo.blogspot.com.es/ de 26-10-2013 denominada "NÃO HÁ BECOS SEM SAÍDA".


 A vitória do povo grego sobre a chantagem neoliberal de vários governantes e outros membros da classe política atualmente no arco do poder europeu, voltou a trazer à primeira página dos jornais e das mentes que ainda conseguem pensar sem muros no pensamento, a pergunta que se se impõe:
 
- O povo grego ganhou! E agora? O que fazer para que este sucesso não se torne uma vitória de Pirro?
 
Ou como diz o meu pai com 92 anos e muita vida vivida:
 
- Ganharam à Troika! E aos coronéis será que lhes ganharam?
 
Esta reserva mental de quem já viveu muito, expõe uma verdade indesmentível: a Democracia não é um regime divino, eterno e indestrutível: pode ser atacada por dentro  e por fora. 
 
Os que viveram o Séc. XX, lembram com certeza que os inimigos da Democracia do Povo, quando não conseguem impor muros no pensamento, impõem os muros de canhões como a sua solução final. 
 
As diversas fações da classe política (nos governos e oposições institucionais) criaram o mito de que não há Democracia sem eles e mais: que a Democracia são eles.
 
O mito de que fora da classe política só há caos, é atualmente uma das paredes mentais mais usadas para nos criar a ilusão de que fora das propostas da classe política, só há becos sem saída e impossibilidade de governar.
 
Estes camaleões tentam fazer-nos esquecer que todos os banqueiros são anarquistas: eles não querem governos de nenhum tipo a controla-los, mas querem restringir a governação a simples funções de policiamento do povo em geral, para garantia do seu status quo.
 
Os caminhos para saída deste estado de coisas, passam pela resolução de dois grandes problemas da civilização atual:
  • Como governar com a participação do povo, retirando à classe política o monopólio do acesso ao poder.
  • Como fazer funcionar a economia (a de mercado + a planificada), retirando aos banqueiros o monopólio do controlo do dinheiro.
A solução destes dois problemas permite-nos definir as funções necessárias e suficientes do Estado atual.
Para abordar o problema,  preciso de em primeiro lugar esclarecer os leitores sobre o meu posicionamento em relação às diversas perspetivas existentes nos meios académicos sobre o conceito de Estado.
Entre as noções científicas de Estado que considero mais claras e sintéticas refiro-me à de Max Weber, pois enfatiza a ideia que considero central para tratar o problemas acima citados: “ O Estado é o dono do monopólio da coercividade legal. ” 
Dito por mim de uma maneira mais “matemática” :
“O estado é a entidade que numa sociedade controla de forma estável os operadores de criação, destruição e transformação, que transformam a lei da força em força da lei, sendo por isso o titular máximo de todos os monopólios”
Em publicações anteriores já defini o que é a classe política http://penanet.blogspot.com/2011/05/classe-politica.html  e http://penanet.blogspot.com/2012/10/a-classe-politica-e-alta-classe.html ) e também já apresentei em vários artigos a prova da possibilidade de uma governação participada sem que a classe política detenha o monopólio da representatividade ( http://penanet.blogspot.com/2011/02/sistema-de-decisao-alternativo-ao-da.html   ).
Considero que o SYRISA é um partido político institucionalizado e membro de direito da classe política, que de modo nenhum está apetrechado ideológica e cientificamente para promover qualquer transformação radical na sociedade Grega e muito menos na sociedade europeia globalizada.
À classe política mundial desde chineses a americanos, interessa que os povos europeus estejam domesticados e aceitem sem reservas os seus ditames financeiros. Até hoje não vi ninguém do SYRISA dizer que se pode ter democracia sem o monopólio da representatividade pelos partidos e sem o monopólio da circulação do dinheiro pelos bancos. Antes pelo contrário, parece que querem é ter eles o monopólio do controle dos bancos e logo da emissão e da circulação do dinheiro.  Nesse sentido o SYRISA não acrescenta nada de novo ao panorama grego e europeu. O SYRISA não apresenta um novo modelo de funções para o Estado. Apresenta sim o Estado tal como o conhecemos com menos pintura neoliberal e mais uns remendos vermelhos ou alaranjados, dos socialismos do passado.
O futuro dirá se os laivos de socialismo que perpassam no discurso o na prática do SYRISA darão como resultado a criação de um novo paradigma de estado e sociedade ou simplesmente conseguem perpetuar localmente o velho modo de produção capitalista, criando mais uma ilusão no povo grego de que o socialismo é a única antítese alternativa ao capitalismo.


29 outubro 2014

Para que nos servem os economistas?


Numa entrevista recente na rádio, o Bastonário da Ordem dos Economistas, afirmou publicamente que a economia não é uma ciência exata, pois todos os seus cálculos são previsões, que podem ser desmentidas pela realidade.
No entanto um ramo aparentado do conhecimento: a contabilidade, é uma ciência exata, que apresenta todos os seus resultados com precisão de um relógio suíço,  exceto quando os balanços contabilísticos se referem a empresas do setor financeiro, em que os lucros apurados, não passam de uma simples miragem, motivada pela gula da distribuição de dividendos e prémios de gestão.

Ser a economia uma arte semelhante ao Tarot  ou a um culto religioso feito por xamãs, que mandam chover ou fazer sol na bolsa de valores, até teria a sua graça, se as ações dos doutos economistas não tivessem consequências funestas nos nossos bolsos.
Se a economia não se pauta pela exatidão, então deveríamos olhar para os economistas como uma espécie de adivinhos e não como titulares de grau académico. A sua ciência não se pautando pelo rigor de cálculo,  não passa de mera especulação, senão mesmo de embuste premeditado.

Sendo assim, para que nos servem os economistas?
Esta alta classe de pessoas, pela graça de Deus, arroga-se ao direito a governar as empresas, os serviços públicos e as nações. Empenha-se em interpretar e mesmo reescrever o passado e prognosticar o futuro, ao sabor de cada nova  "teoria" que inventa, criando experimentos no laboratório social da vida, em que nós, os comuns dos mortais, não passamos de meras cobaias que na melhor da hipóteses servem para testar se a folha de cálculo que planifica a nossa austeridade tem algum erro básico de contas.

Essa espécie de seres desumanos, do alto das sua ilustre e soberba ignorância , sacrifica pessoas, massacra nações e aterroriza a humanidade em nome do deus lucro, cujo verbo encarnado nos fala do paraíso dos mercados, através dos textos da sua sagrada escritura revelada ao profeta Milton Friedman.

Apesar de se intitularem neoliberais, estes doutos especialistas em adivinhação, têm uma enorme aptidão para em nome do deus lucro, colaborarem com as mais negras ditaduras económicas ou políticas (1), renegando na prática a liberdade que apregoam nos discursos. Para eles a liberdade é apenas para o capital financeiro eliminar as classes médias e esmagar as classes mais baixas, na sociedade construída segundo sua bitola.

Esses cruzados guardiões da ordem do mercado, aproveitam (e até criam de propósito) as mais duras crises, para com uma política terra queimada, extorquirem e extirparem das sociedades contemporâneas tudo o que o que elas tenham de estado social Keynesiano ou mesmo qualquer  cheiro a socialista.

A sua verdade dita que a raiz de todos os males que afligem as sociedades é o demónio social, esteja ele disfarçado de :
  •  segurança social,
  •  escola pública,
  • “profit sharing” (participação nos lucros ),
  •  responsabilidade social,
  •  educação pública,
  • segurança pública,
  • economia verde
 ou mesmo quando aparece na sua encarnação de Satanás Socialista.   
Eles querem impor “a sua verdade,” nem que tenham de reescrever a realidade pressente ou passada, para condicionar aparecimento do futuro previsto por eles, mesmo que essa previsão seja o fruto de um erro básico de matemática.

A sua verdade é a mesma do “Big Brother”  exposta no livro “1984”.  Vejamos porque é que os ditos economistas fazem a sua guerra para condicionar a humanidade, citando a Wikipédia :

“No livro, Orwell expõe uma teoria da Guerra. Segundo ele, o objetivo da guerra não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa. O objetivo da guerra é manter o poder das classes altas, limitando o acesso à educação, à cultura e aos bens materiais das classes baixas. A guerra serve para destruir os bens materiais produzidos pelos pobres e para impedir que eles acumulem cultura e riqueza e se tornem uma ameaça aos poderosos. Assim, um dos lemas do Partido, "guerra é paz", é explicado no livro de Emmanuel Goldstein: "Uma paz verdadeiramente permanente seria o mesmo que a guerra permanente".

Mas  para implementar este tipo de escravatura da era industrial e violar os direitos humanos, já tivemos e temos e teremos os ditadores e os estados totalitários.  
Eles não conseguem explicar o funcionamento do modo de produção capitalista, que tem mais de 200 anos de vida e conviveu ao longo desse tempo com as mais doutas escolas do xamanismo económico.
Eles não conseguem justificar:
  • a inflação,
  • a crise
  • o desemprego
  • a austeridade
  • o crescimento
  • a evolução dos preços
  • o rating dos bancos e dos países
O único futuro que conseguiram "prognosticar" foi o das falcatruas financeiras depois delas terem sido tornadas públicas. Nem sequer conseguiram avisar sobre os perigos dos esquemas dos velhos embustes financeiros tipo pirâmide de Ponzi.


Afinal para é que queremos economistas?
 

08 outubro 2014

A um passo do abismo!


 A humanidade em geral e a civilização do sec XXI em particular, tem uma predileção especial em caminhar sobre o fio da navalha, assumindo atitudes de  risco que são típicas de fases juvenis dos seres humanos individuais.
Foi a guerra fria do sec XX, sempre a um passo da guerra nuclear generalizada. Foi o consumo descontrolado de combustíveis fósseis, sempre a um passo do desastre climático, ignorando os avisos da ciência e do clima. É o uso descontrolado (e com experiências muitas vezes secretas) de organismos geneticamente modificados, quando ainda estamos no início da compreensão do funcionamento dos mecanismos da vida, sempre a um passo de um desastre biológico à escala planetária. Foi e é o "esquecimento" generalizado por políticos e governantes mundiais, das regras de prudência dos 3 R, quando se impunha uma concertação global sobre a nossa evolução conjunta num futuro imediato. Isso conduz-nos todos a um passo de uma sociedade de escassez, em vez do nos dirigirmos em conjunto para uma sociedade da abundância preconizada por Karl Popper.
É o claro retrocesso planetário dos direitos dos cidadãos em favor dos "direitos" do capital financeiro, fazendo-nos aproximar do abismo dos estados totalitários, em vez de usufruirmos dos benefícios da revolução cientifico-técnica e da 4ª revolução da igualdade em curso desde o último quarto do sec XX.
Temos escapado sempre ao pior cenário, mas não é prudente continuar a abusar da sorte. A nossa capacidade de sobrevivência global não é ilimitada e se continuarmos a acumular erros básicos, de um momento para o outro pode rebentar o fio que segura a espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças.
O desastre sanitário (vírus ébola) que se abateu sobre a África equatorial e que já teve repercussões na vizinha Espanha, é disso uma prova cabal. 

Perante a iminência de catástrofes globais ou localizadas continuamos a comportar-nos como miúdos incautos a brincar com o fogo. Existem recursos científicos e tecnológicos que aliados  a uma atitude prudente nos permitiriam enfrentar os problemas atuais e alguns previsíveis para um futuro próximo. 
Nunca poderemos esquecer que temos o abismo da aniquilação como destino certo. Isso deriva das leis da termodinâmica, no entanto podemos afastar-nos conscientemente desse cenário nos tempos próximos em vez de caminharmos inconscientes pelas bordas do precipício.
 Vivemos num planeta azul muito bonito e aprazível, mas único no universo observável ao nosso alcance.
É conveniente não nos esquecermos que só temos uma vida e um só planeta à nossa disposição.