08 abril 2013

António Costa (PS) e a Classe Política

António Costa, em menos de 3 minutos,  na "quadratura do círculo" arrasou a Classe Política Europeia.
Eis o que ele disse:
“A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir. E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável. Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer… podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!
A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.
Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público. Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.
Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público--privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos.
Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."

02 abril 2013

A produtividade e os objetivos com que foi criada a crise financeira nos USA e na Europa

Ouvem-se agora amiúde os arautos do liberalismo desregrado tecer hinos de louvor à crise, a quem chamam de oportunidade(s), enaltecendo as suas virtudes na melhoria da produtividade. Recentemente Avelino de Jesus, professor do ISEG, Instituto Superior de Economia e Gestão, no programa Olhos nos Olhos, na TVI24, nesta segunda-feira 01-4-2013, defendeu que na origem da crise portuguesa esteve a produtividade  reduzida dos trabalhadores portugueses, uma das mais baixas da Europa. Defendeu também que essa baixa produtividade era causada pelo tecido económico Português ser maioritariamente constituído por PME, com baixa proporção Capital / Trabalho.
Defendeu ainda que a austeridade traz como benefício o expurgar as pequenas e médias empresas, do tecido produtivo por estas não possuírem a proporção de capital acima de um certo limiar que permitiria uma produtividade idêntica à dos países economicamente mais desenvolvidos.
Esta ideia dos políticos neoliberais que campeia em alguns meios universitários e é até defendida por alguns académicos de peso, é um embuste e a sua justificação um reles exercício de pseudo ciência para enganar os incautos e apanhar os ignorantes das verdadeiras leis de funcionamento da actividade económica.
A definição de "Produtividade" dada por este professor no citado programa é a clássica utilizada nas escolas de economia e que resulta da definição dada pela CE . (citação da Wikipédia pag. visitada em 02-04-2013).
"Em 1950 a Comunidade Económica Europeia apresentou uma definição formal de produtividade como sendo o quociente obtido pela divisão do produzido por um dos fatores de produção. Dessa forma, pode-se falar da produtividade do capital, das matérias-prima, da mão-de-obra, etc.mão-de-obra, materiais, energia, etc.). Por isso, associa-se a produtividade à eficiência e ao tempo: quanto menor for o tempo levado para obter o resultado pretendido, mais produtivo será o sistema " 
De acordo com esta definição pode-se chamar Produtividade Total no processo produtivo ao rácio:  Ptot = Preço de venda / (Preço do Capital + Preço do Trabalho) .
A fórmula acima pode-se reescrever como  Ptot = (PV/PC)/(PT+PC)) . Nesta última expressão vê-se claramente que quanto maior for o rácio Capital/Trabalho maior será a produtividade, sendo limitada superiormente pelo quociente: Preço de Venda / Preço do Capital.
Isto que dizer em resumo que a produtividade é máxima se suprimirmos os trabalhadores do processo produtivo, isto é, se a produção for toda automatizada: sem gestores, sem economistas, sem empregados de escritório, sem engenheiros, sem operários ... sem viva alma além das máquinas.
Esta expressão matemática corresponderia à verdade factual se tivéssemos os preços de venda do trabalho e do capital referenciados a uma escala de valor imutável e padrão para toda a actividade económica humana. Mas os preços de venda são manipulados pelos mercados e pelos mercadores e ambos, mercados e mercadores manipulam o preço do trabalho e o mais grave ainda manipulam o preço dos símbolos de valor e meios uniformes de pagamento (vulgo dinheiro).
Deste modo se vê como uma bela fórmula matemática, que se quer que seja expressão do modelo padrão de funcionamento da economia, se torna em coisa inútil para o estudo científico da atividade económica, servindo apenas para apologia dos ideais de opressão e exploração das classes sociais produtivas, pela classe social parasita: a classe política, constituída por governantes e eleitos de todas as espécies nas estruturas de estado e da sociedade.
Se a actividade económica seguisse uma linha não manipulada, dependente apenas dos avanços tecnológicos, a produção tenderia  a ser cada vez mais automatizada e o preço dos bens e serviços tornar-se-ia cada vez menor, tendendo para a gratuitidade à medida que avançava a automatização. Vide estudos sérios feitos por Chris Anderson nos seus estudos sobre economia "The Long Tail - A Cauda Longa" e "Free - Grátis". O Blogger da Google, que aloja este Blog é um exemplo vivo de um produto de alta tecnologia com um investimento de capital altíssimo em permanente aumento de automatização, que nos é oferecido para usufruto a custo ZERO (o mesmo acontece na maioria das redes sociais e demais variados serviços de Internet para TI em todo o mundo) . Neste ramo da economia pagam-se altos salários aos trabalhadores e oferecem-se serviços a custo zero com altíssimos índices de produtividade de capital.
Parece um paradoxo ou uma mentira de um de Abril, mas é uma realidade económica que não acontece por acaso, mas se fundamenta no real funcionamento ciência económica onde se consegue minimizar a interferência da classe política.
O valor comercial das mercadorias (bens e serviços transacionáveis) pode ser expresso por um modelo económico que espelhe a realidade, que assuma que os bens e serviços só têm valor se este se considerar função do trabalho humano necessário para a sua produção. Um diamante não tem valor de mercadoria por ser diamante nem pela frequência com que aparece na natureza (raridade) mas pelo trabalho que é necessário para o colocar na mão de utilizador final.
O preço das mercadorias bens e serviços é : 
PreçoTotalMercadoria=PreçoAquisição+PreçoPosse+PreçoReposiçãoCondiçõesIniciais

As parcelas desta soma muitas vezes não constituem encargo do usufrutuário dos bens e serviços na sua totalidade. Há uma parte que é paga em condomínio por toda a sociedade, nomeadamente na terceira parcela .
Uma fórmula que ilustra o valor de forma realista em função do trabalho humano contado em tempo referente aos três items anteriores é : Ptot=a.TrabalhoHumanoPresente+b.TrabalhoHumanoPassado+-c.OfertaProcura,  em que a , b, c são coeficientes de ponderação.
O rácio TrabalhoHumanoPassado/TrabalhoHumanoPresente representa a automatização .
Como se vê nesta expressão a Lei da Oferta e da Procura tem apenas um efeito de correção modulante para mais ou para menos na atividade económica. A OfertaProcura aparece numa sociedade em que a produção seja feita num sistema de mercado concorrencial auto-regulado (com muitos produtores por cada tipo de bem ou serviço ou seja com muitas PME)
Num sistema produtivo em que não exista concorrência (produção planificada ou produção monopolista) existe uma outra parcela que se torna relevante d.FactorMonopólio e que é o custo adicional tendencialmente crescente com a evolução tecnológica que aparece nos mercados sem concorrência e que foi o responsável pelas grandes crises nos sistemas económicos das sociedades do Sec XX (implosão dos países comunistas e crises sucessivas desde os anos 90 nos países capitalistas).
Analisaremos este fator mais em detalhe noutro artigo.

Continua.....

04 março 2013

O SOL GLORIOSO

O SOL GLORIOSO - Isaac Asimov ( excerto do livro “O Início e o Fim” - Edições Melhoramentos)

Vivemos da energia do Sol Glorioso, e tudo que vive o faz. As plantas verdes fazem uso da energia da luz solar para converter o dióxido de carbono, a água e minerais em hidratos de carbono, gordura e proteínas. Os animais vivem dos compostos de alta energia das plantas, ou de outros animais que comeram plantas. Toda a vida animal, inclusive a nossa, se alimenta, finalmente, das plantas verdes que fizeram uso da energia da luz solar para criar a provisão de alimentos.
A tecnologia do homem está também, baseada, na energia solar. O calor solar aquece desigualmente o ar e o mar, criando ventos e correntes oceânicas. O calor solar evapora o oceano, elevando quilómetros cúbicos de água ao espaço, na forma de vapor. Lá, a água, a seu tempo, condensa-se, e cai em forma de chuva; parte dela cai em continentes, onde se acumula em lagos a lagoas, alguma corre de volta aos oceanos na forma de rios e riachos. E os ventos e a água corrente têm estado a mover navios e a girar rodas desde os tempos antigos.
 A grande fonte de energia, feita pelo homem - o fogo - depende da queima de combustível no ar. Onde o combustível é lenha, o fogo representa a queima de compostos formados por plantas através do uso da energia da luz solar; onde é a gordura animal, são os compostos formados por animais a expensas das plantas; onde se trata de carvão ou de petróleo, o combustível é material que se formou por meio de plantas ou de animais há centenas de milhões de anos, partindo da energia dessa antiga luz solar.
Até o oxigénio da nossa atmosfera foi libertado da água pela energia solar usada pelas plantas na fotossíntese. (nota do autor deste blog)
 Alguma energia usada pelo homem não é de origem solar; o calor interno da Terra manifesta-se em fontes quentes; a rotação da Terra produz o movimento das marés; e os núcleos atómicos podem sofrer fissão, ou fusão, para produzir energia. Estas fontes não-solares de energia têm contribuído, por enquanto, muito pouco para as necessidades totais de energia da humanidade.
A principal fonte, neste momento (e durante dois séculos passados), é o carvão, apenas superado pelo petróleo - ambos obtidos do interior da crosta terrestre. Entretanto, o carvão é difícil de ser conseguido e transportado; ademais, sua escavação prejudica o meio ambiente. O petróleo é de abastecimento limitado, e o dia do seu desaparecimento não se encontra a muitos decénios no futuro. Tanto o carvão como o petróleo, ao serem queimados, poluem gravemente. Ainda que o carvão e o petróleo pudessem ser purificados e queimados com completa eficiência, de modo a não produzirem poluição química comum, eles, ainda assim, dão como desperdício dióxido de carbono, que não deixaria o calor escapar para o espaço, a isto aceleraria a tendência para o aquecimento pelo efeito de estufa que aquece lentamente a Terra, alterando-se o clima.
Se nos voltarmos para a fissão nuclear, haverá o grande perigo da poluição pela radiação. Se nos voltarmos para a fusão nuclear, com a qual o perigo da poluição é muito menor, teremos de enfrentar o facto de que os problemas de engenharia envolvidos na fusão se encontram por enquanto solução, e talvez requeiram decénios para serem resolvidos.
Podemos voltar-nos de novo para o Sol. A despeito de toda a energia solar que entra na produção do vento, das correntes aquáticas e das plantas verdes, mais de 90 % da energia que recebemos do sol destina-se simplesmente a aquecer a Terra. Este aquecimento é útil, naturalmente, pois mantém a temperatura da Terra suficientemente quente para tornar possível a vida. Contudo, se esse desperdício de calor da luz solar fosse utilizado para os propósitos do homem, ele acabaria sendo utilizado como calor (que é indestrutível), e a Terra continuaria tão quente como antes. A cada dia, a quantidade de luz solar que incide sobre a Terra, sem ser usada de alguma forma, a não ser para aquecer o nosso planeta, representa tanta energia quanto a humanidade utiliza em cerca de 3 anos. E mais: a energia solar a completamente não-poluente. Ela nem sequer introduz poluição pelo calor, porquanto o calor existe, nela, na mesma quantidade, façamos ou não façamos uso da energia.
 Que é que nos impede, então, de fazer uso da energia solar?. Três coisas:
1. energia solar é muito diluída. É muito abundante, mas espalha-se subtilmente por uma grande área. Colectá-la e concentrá-la até o ponto em que se torne útil para a tecnologia humana é coisa altamente complexa.
2. A energia solar directa varia em quantidade com a hora do dia . É baixa pela manhã e à tarde, e não existe à noite. As nuvens, a névoa e a neblina reduzem-lhe a quantidade, mesmo quando está no ponto máximo. Em muitos lugares, onde a indústria do homem é mais concentrada, a quantidade disponível do Sol é particularmente variável.
3. O homem tem sido extremamente preguiçoso quanto a solucionar os problemas de engenharia envolvidos no uso directo da energia solar, porque estiveram à sua disposição as técnicas mais simples de queima do carvão e do petróleo; e tem tido, igualmente, falha de imaginação, de modo que não tem visto as necessidades e as possibilidades com suficiente antecipação para fazer funcionar um dispositivo condicionador de ar que refrigerará a casa no tempo de calor. O Sol pode não inspirar confiança bastante para manter essa "casa solar" em funcionamento durante fases de céu encoberto, ou quando o tempo está extremamente quente, ou frio; mas poder-se-iam usar fontes de energia mais convencionais, a título de apoio, em quantidades pequenas com o correr do tempo. Então porque não se faz isto?
 Em primeiro lugar, faz-se. Casas equipadas para uso de energia solar são construídas aqui a acolá, particularmente no Japão; mas, no conjunto, apenas ocasional e experimentalmente. O custo inicial é elevado, e a indústria da construção reluta em investir dinheiro enquanto o público, não compreendendo claramente a poupança com o correr do tempo, ou não dispondo do indispensável capital, não se mostra disposto a comprar. Outros empregos de pequena escala envolvem alambiques em que a luz solar é usada para evaporar a água do mar, de modo que água doce se condense e se acumule; envolvem também fornalhas solares, nas quais a luz solar é reflectida por um conjunto de espelhos e focalizada num determinado ponto no qual a temperatura, então, se aproxima da temperatura da superfície do Sol.
 A energia da luz solar também pode ser usada para produzir electricidade - forma bem mais flexível a delicadamente útil de energia do que o calor. Algumas composições de metais, de quantidades cuidadosamente ajustadas, podem dar origem a uma pequena corrente eléctrica durante o tempo em que estiverem expostas a luz do Sol. Estas "células solares" tem sido usadas com grande êxito para fornecer energia a satélites artificiais. Imaginem-se séries de células solares alinhadas sobre telhados, ou sobre outras superfícies expostas à luz do Sol. A electricidade poderia ser produzida em quantidades contínuas, podendo fazer funcionar utensílios. Poderia ser armazenada em baterias, e usada para iluminar edifícios à noite. É certo que as células solares são caras e são também frágeis. No momento presente, a electricidade solar seria cerca de quinhentas vezes mais cara do que a electricidade produzida por meios mais convencionais. Observe-se, porém, que as células solares têm sido produzidas em pequenas quantidades, para fins especializados. Se se fizerem esforços para produzir células mais robustas, no estilo de produção em massa, o seu preço poderá descer drasticamente.
Poderíamos então imaginar gigantescas fábricas de energia baseadas numa vasta série de células solares, cobrindo amplas áreas dos sectores da Terra em que a luz do Sol é quase continua. Acontece que estes sectores são áreas desérticas, onde há pouca vida e onde a luz solar aquece inutilmente apenas areia nua e rocha. Cerca de 12,4 milhões de quilómetros quadrados da superfície da Terra apresentam-se na forma de deserto tostado pelo Sol. Só o deserto do Saara é tão grande como os Estados Unidos. As células solares, funcionando a apenas 10 % de eficiência, requereriam 48.000 km2 de luz solar (apenas 1/250 da área desértica do mundo) para suprir as actuais necessidades de energia do mundo. Nos Estados Unidos, existem amplos sectores do sudoeste que poderiam ser usados como fontes de energia solar. Naturalmente, isto exigiria grande investimento inicial. Pode ser que os xeques do petróleo abram o caminho. No presente, eles estão reunindo a riqueza do mundo em suas mãos, a troco do petróleo que possuem, e encontram-se um tanto confusos sobre o que fazer com essa riqueza. Certamente, as nações produtoras de petróleo do Médio Oriente têm consciência de que seus recursos estão minguando, e de que, por coincidência, suas terras contêm generosos sectores dos desertos do mundo tostados do Sol. Se tiverem visão razoavelmente ampla, financiarão as pesquisas e a engenharia que transformarão seus países em centros de energia solar. Por essa forma, eles conservariam seu poder económico, a ainda ajudariam o resto do mundo, que poderia utilizar a experiência do Médio Oriente para construir fabricas eléctricas em áreas desérticas de outras partes do globo. As fábricas eléctricas baseadas em desertos da Terra talvez não sejam a última instância. A atmosfera terrestre reflecte mais de metade da energia da luz solar, remetendo-a de volta ao espaço antes que ela atinja a superfície do nosso planeta, e ainda absorve parte da que resta. Ademais, os desertos têm suas tempestades de areia, e poderiam sofrer terramotos devastadores. O simples facto de que as fábricas eléctricas ficariam a superfície da Terra significaria que elas interfeririam nas formas de vida, inclusive a humana, e vice-versa.
Há sugestões, pois, no sentido de que os dispositivos colectores de energia sejam, algum dia, levados para fora da Terra e reunidos em vários satélites artificiais, orbitantes, distribuidores de energia solar. Tais satélites poderiam absorver luz solar, à noite, sem interferência e sem perca motivada pela atmosfera terrestre. A energia que eles absorvessem poderia ser projectada para a Terra na forma de micro-ondas (como as que são usadas no radar), e, na Terra, essas micro-ondas poderiam ser captadas por antenas gigantescas.
Há trinta anos, escrevi uma história descrevendo essas fábricas de energia circulando ao redor do Sol, nas proximidades da órbita de Mercúrio, onde a energia solar é cerca de dez vezes mais concentrada do que nas proximidades da Terra. (Os "satélites fábricas de energia" eram accionados por meio de robôs, na minha história.) O conceito era, então, pura ficção científica, e ainda o é hoje, mas no terço de século intermédio, ele chegou bastante perto da praticabilidade. Quando escrevi pela primeira vez aquela história, nenhum dos escritores de ficção cientifica sequer sonhava com satélites e fábricas espaciais, e os cientistas estavam apenas começando a aprender o modo de lidar com as micro-ondas. Dentro de outro terço de século, quem sabe...
O que precisamos é da habilidade dos cientistas e engenheiros para superar os problemas práticos existentes; da resolução dos líderes políticos para apoiá-los; da capacidade do povo, em geral, para compreender as potencialidades do uso directo da energia solar, bem como da sua boa vontade em ver o dinheiro dos seus impostos usado para tal fim; e, acima de tudo, da continuidade da estabilidade da ordem social mundial, da ordem económica e do sistema tecnológico. Precisamos de visão e de alguma boa sorte, também….

18 fevereiro 2013

Faturas Obrigatórias - Grave atentado ao direito à privacidade


Como programador apenas posso afirmar que é situação é ainda mais grave do que aquilo que é demonstrado no texto abaixo. Em próximo artigo farei a demonstração desta afirmação.

Texto escrito por António Martins, com quem concordo quase completamente. 

"Para quem não sabe, estou a trabalhar na área de software de gestão, e como tal, os meus últimos meses têm sido vividos um pouco à volta do ficheiro SAF-T.
Antes de mais, o que é um ficheiro SAF-T e a certificação de documentos:
Um software certificado coloca uma assinatura digital nas suas facturas, que, sem vos aborrecer com os detalhes técnicos, garante que a factura não é modificada depois de emitida.
O ficheiro SAF-T era, até 1 de Janeiro de 2013, um ficheiro de auditoria, que era fornecido ao inspector das finanças nos (muito raros) eventos de inspecção das finanças. Este ficheiro sozinho garante que a empresa não foge aos impostos (cruzando com dados multibanco e bancários), não altera os valores e dados das suas facturas e é ainda possível conferir mais uma série de dados. Os ficheiros SAF-T são gerados no momento, e podem ser gerados para períodos de tempo diferentes (1 ano, 1 mês, etc)
O que está dentro de um ficheiro SAF-T?
Os dados gerais da empresa (morada, nome, nif, conservatória, etc)
Dados de todos os clientes da empresa (Nome, morada, contacto telefónico, email, nif)
Informação de todos os produtos ou serviços vendidos pela empresa (referência, designação do produto)
Dados de facturação (para cada factura: data, hora, cliente e nif do cliente, produtos vendidos, valor, valor de iva, etc, etc)
O que acontecia até 1 de Janeiro ? Muitas empresas usavam os talões e vendas a dinheiro, cujo cliente é "consumidor final" e o nif é 99999990, ou seja, informação genérica.
O que aconteceu em 1 de Janeiro? Muito:
1. Toda e qualquer transacção tem de ter emissão de factura. Ou seja, os dados da factura passam para o saf-t com o nº de contribuinte e nome do cliente. Existem as facturas simplificadas que podem ser feitas a um "consumidor final" mas podem ser usadas em apenas casos restritos.
2. Todos os SAF-T de todas as empresas nacionais são enviados para as finanças mensalmente.
Vou dar um exemplo:
O Sr. Foo acordo num belo dia de férias de Verão. Toma o pequeno almoço no café da esquina (factura 1) e vai ali à sede do partido X pagar a sua cota mensal (factura 2). Passa pelo templo da sua religião e paga o dízimo (factura 3). Almoça no seu restaurante favorito (factura 4), vai ao cinema ver um filme (factura 5), compra 2 "brinquedos" na sexshop da esquina (factura 6) e janta uma mariscada á beira mar (factura 7)..
No fim do mês, as 7 empresas envolvidas no dia do Sr. Foo vão enviar o ficheiro SAF-T para as finanças, e lá vai a informação:
O que o Sr. Foo comeu nessa manhã, a que horas e em que local.
Qual a sua filiação política, e onde costuma pagar as cotas.
A sua religião.
O que almoçou, a que horas, e em que local.
Que viu o filme Y.
Comprou "brinquedos" na loja tal.
Jantou uma mariscada, a que horas e em que local.
Isto num dia. Ao fim de um mês, passam a ter os hábitos de cada cidadão, ao fim de um ano? Têm na mão a vida de uma pessoa. Querem mais? Dois informáticos acabados de sair do curso, com acesso a estes dados rapidamente conseguiam fazer cruzamento de dados. Cruzando por exemplo, o Sr. Foo com a sua esposa, Sr.ª Boo:
Tomou o pequeno almoço com a esposa, pois foram 2 cafés e 2 croissants, isto porque a Sr.ª Boo comprou a "Maria" 30 minutos depois no quiosque a 50M do café. (todas as transacções têm de ter uma factura, tudo é seguido)
Ela não pagou cotas políticas ou religiosas, o Sr. Foo está nisso sozinho. (cruzamento das facturas do Sr. Foo e Sr.ª Boo)
Não almoçaram juntos. Almoço foi 1 menu MacDonalds do Sr. Foo e a Sr.ª Boo tem uma factura de almoço no mesmo dia a 150km de distância. (cruzamento das facturas do Sr. Foo e Sr.ª Boo)
O filme era sobre Che Guevara. Isto, aliado á filiação política e religiosa torna o Sr. Foo alguém a seguir no futuro. (Descrição dos artigos vai no ficheiro SAF-T)
A Sr.ª Boo continua com facturas a 150km de distância, os "brinquedos" e a mariscada para 2 ao jantar sugerem uma amante
E se o Sr. Foo fosse o líder da oposição? Ou dono de uma empresa a concorrer num negócio do estado? Ou o presidente da república? Ou juíz num processo contra um deputado do partido do governo? Sou apenas eu que vê o PERIGO no envio de todas as facturas emitidas em Portugal, mensalmente para o estado?
E quem tem estas bases de dados? É uma empresa privada? Quem está à frente disto, quem vai garantir a privacidade dos dados? Alguém acorde por favor, alguém nos defenda!
Os meus receios não ficam por aqui.O ficheiro SAF-T é guardado em plain text! Um curioso informático que ligue o wireless no centro comercial quando a farmácia está a enviar um saft apanha isto (parcial, o ficheiro saf-t inclui, por exemplo, os dados do customer 149):
SystemEntryDate>2012-12-14T19:27:53
CustomerID>149
ShipTo />
ShipFrom />
Line>
Isto não é só ridiculo como grave! Não vi um deputado falar sobre isto. Não vi ninguém preocupado com a Constituição!"

23 outubro 2012

A mudança é um processo revolucionário

A mudança é um processo revolucionário, não é simplesmente uma evolução na continuidade. É na verdade um processo comum na vida, quer seja considerada do ponto de vista biológico, quer seja estudada do ponto de vista das organizações como as empresas. Podemos aplicar às organizações um tratamento teórico similar à 5ª teoria de Darwin (a teoria da seleção natural)1 conjugado com as leis do "acaso e da necessidade".
A mudança é sempre uma alteração radical de paradigma, seja ele :
  • organizacional, 
  • processual,
  • informação - conhecimento
  • informação produtiva - tecnologia
Precisa de condições ambientais ou de enquadramento, para ter sucesso, mas apenas como condições necessárias e não suficientes. Tem como condição necessária a pré-existência de tecnologia adaptada às novas realidades,  ou funcionalidades internas adaptáveis a essas mesmas novas realidades .

Esse processo revolucionário nas sociedades até pode ser despoletado por uma ideologia política, por uma corrente científica, por uma crença de caráter religioso, ou por uma ação individual de alguém com carisma, mas isso apenas significa que o ambiente já era propício e que o modelo de sociedade existente antes da revolução já apresentava falhas e incapacidades principalmente ao nível da adaptação rápida.

Para que o processo revolucionário se complete com sucesso ou seja para que o novo paradigma inicie e sobreviva substituindo o anterior concorrem em geral duas linhas de condições :
  • Acontecimentos iniciadores ou gatilhos
  • Ambiente interno e externo propícios antes e depois dos acontecimentos iniciadores.

1 - Pergunto-me: 
  • deve-se considerar um processo revolucionário como um processo determinístico?
  • ou deve-se considerar como um processo probabilístico? 
E se for probabilístico (como eu penso) é perfeitamente ao acaso ou podemos considerar algumas regras como as regras de evolução de sistemas complexos que evoluem coexistindo num determinado período temporal? 
O conceito de seleção natural (a que eu chamo Darwiniana por ter sido Charles Darwin que primeiro verificou e sistematizou esse tipo de evolução ao estudar a evolução das espécies ) parece-me que se pode aplicar a sistemas complexos (biológicos ou abióticos) que de qualquer modo interajam em ambientes competitivos. 
Poderemos ver como os trabalhos de Darwin influenciaram muitas áreas da ciência num resumo em que se apresentam argumentos de muitos académicos no artigo : http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,darwin-200-anos-depois,320094,0.htm