25 setembro 2018

Liberdade de Pensamento, Liberdade de Expressão e Liberdades Económicas - 1

A propósito de uma conferência a que assisti, hoje 21 de Setembro de 2018, na Faculdade de Economia do Porto, sobre o tema Pilar Europeu dos Direitos Sociais, onde foram oradores 3 deputados portugueses no Parlamento Europeu: António Marinho e Pinto ( Aliança dos Liberais e Democráticos Europeus ); João Pimenta Lopes ( Comunistas e Verdes Nórdicos) ; Sofia Ribeiro (PPE), sendo moderadora a Profª Drª Pilar Gomzalez.

Nessa conferência, o orador Marinho e Pinto justificou com números, que os indicadores sociais mais elevados estão nos países desenvolvidos que conseguiram conciliar desenvolvimento económico com os princípios de democracia e do republicanismo ( liberdade, justiça e solidariedade), enfatizando, em súmula,  a liberdade de expressão do pensamento, a liberdade de empresa e iniciativa económica e todas as outras liberdades individuais e sociais, como motores de progresso social.

Todos os oradores, com distintos pontos de vista, se mostraram preocupados com o avanço eleitoral e social dos ideais e práticas de extrema direita: intolerância social e económica(protecionismo), xenofobia e outras ideias e práticas, que foram associadas ao medo e às consequências do grave problema dos migrantes que chegam constantemente à Europa fugidos da guerra e da miséria económica.
Cumulativamente o avanço eleitoral da extrema direita foi ainda associado aos ideais de extremismo económico, atualmente na moda, relacionados com o neoliberalismo.
Todos os oradores, embora com justificações por vezes antagónicas, apresentaram preocupações sobre os efeitos negativos nos Direitos Sociais da prática de vários governos e da comissão europeia, quer por ação quer por omissão.

Em conversa à mesa de jantar, com os meus filhos adolescentes, lembrei-me de lhes perguntar que ideia tinham eles de liberdade de pensamento e liberdade de expressão do pensamento.
Isso despoletou um pequeno debate de ideias, em que o mais novo (13 anos) defendeu e justificou que todas as pessoas têm liberdade de pensamento, mas que a liberdade de expressão do pensamento só existe em sociedades governadas por regimes democráticos respeitadores das liberdades individuais das pessoas. A maioria dos presentes na mesa concordou com ele.
Para sua infelicidade, o pai respondeu-lhe que liberdade de pensamento e liberdade de expressão do pensamento não eram conceitos iguais, nem sequer equivalentes e, pior ainda, que a liberdade de pensamento não é uma condição inata no ser humano.

Esta última afirmação causou mesmo escândalo.
“Então as pessoas saudáveis não podem pensar o que quiserem ? O que é que pode impedi-las de pensar, se ainda ninguém tem acesso aos pensamentos dos outros?” - Perguntou o mais novo.

A resposta a estas últimas perguntas é o que vou tentar partilhar com os meus leitores.
Como em qualquer atividade humana vale a pena saber o que escreveram os outros, em especial o que escreveram os filósofos ao longo da História . “ A experiência dos outros é de graça!” como me dizia muitas vezes Ferreira da Silva , um empresário com quem colaborei profissionalmente muitas vezes.

“Primeiro pensamento, depois expressão. A célebre frase “conhece-te a ti mesmo”, demonstra a convicção de Sócrates (469 a 399 a.C.), no investimento da liberdade individual. Foi um dos primeiros filósofos a aclarar o conceito de liberdade e para o qual “o homem livre é aquele que consegue dominar os seus sentimentos, seus pensamentos, a si próprio”. Para Sócrates “a escravidão é marcada pelo facto do Homem deixar que as paixões o controlem”. A palavra-chave para a concretização da liberdade é o autodomínio. Ou seja, se se for livre a dominar os pensamentos, a expressão agirá em conformidade, sendo também ela livre ”.
Citação de : https://www.delas.pt/liberdade-de-expressao-e-de-pensamento-descubra-as-diferencas/
consultada em 23-09-2018

“A liberdade de pensamento é essencial à mente humana. Ainda são inexistentes os meios de se impor normas ao pensamento humano. Porém, muitas das vezes, nossos pensamentos são conduzidos pelo meio social ou reprimidos.”

“Liberdade é classificada pela filosofia, como a independência do ser humano, o poder de ter autonomia e espontaneidade. A liberdade é um conceito utópico, uma vez que é questionável se realmente os indivíduos tem a liberdade que dizem ter, se com os mídia ela realmente existe, ou não.”
Citação de:  http://socientifica.com.br/2018/02/o-conceito-de-liberdade-segundo-filosofia/ consultada em 23-09-2018.

A carta dos direitos fundamentais da União Europeia do Direitos Fundamentais derivada da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
“Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. ”

“A possibilidade de pensar está contida em todas as pessoas que gozam de saúde mental e possuem o mínimo de discernimento."TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 7.ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p.596.

“O pensamento de cada um está estritamente ligado a sua intimidade, é um direito ainda mais restrito que a própria privacidade, pois diz respeito somente à pessoa que está pensando. Nos pensamentos de determinada pessoa podem acontecer os atos mais absurdos possíveis, é praticamente a mesma coisa que acontece quando estamos sonhando. Alguém pode sonhar ou simplesmente pensar acordado que é um ladrão, ou um assassino, ou que ama certa pessoa e deseja algo de ruim para outra. Tudo é livre e permitido pela legislação, até mesmo, que por questões óbvias, é impossível punir o pensamento.”

“A manifestação mais comum do pensamento é a palavra falada, pela qual alguém se dirige a pessoa ou pessoas presentes para expor o que pensa. ........., é ela uma das principais de todas as liberdades humanas por ser a palavra uma das características fundamentais do homem, o meio por que este transmite e recebe as lições da civilização.”
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional. 29.ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva, 2002. p.291.

Dos muitos artigos e alguns livros que consultei para tentar dar uma resposta aos meus filhos mais novos, sem esquecer os mais velhos que são já pais, ficaram-me algumas certezas que partilho:

1- Os conceitos de Pensamento e Liberdade estão definidos em quase todo os estudos e normas de forma muito subjetiva e pouco clara.

2 – Apreciação sobre Liberdade de Pensamento versus Liberdade de Expressão ainda não produziu conclusões aplicáveis universalmente que sejam consensuais no meio científico e académico.

Em suma, existem muitas dissertações e opiniões sobre o tema, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias. Quase todos os pensadores e filósofos ao longo da história dos últimos 3000 anos abordaram a questão do pensamento, o tema da liberdade e o tema da liberdade de exprimir o pensamento e das regras sociais para regular a expressão do pensamento.

Além dos pensadores, as principais religiões mundiais também se debruçaram e até produziram normativo sobre os pensamentos. Recordo que, por exemplo, a religião católica no seu Ato de Contrição, insta os fiéis ao arrependimento fazendo-os reconhecer publicamente que: “ .... pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa...”
Nesta religião cristã católica, como em quase todas as outras, denega-se expressamente a liberdade de pensar no que a pessoa quer , permitindo-se apenas pensamentos sobre certas categorias do conhecimento previamente aprovadas pela igreja.
Isto está em contradição clara com um dos valores civilizacionais, assumidos atualmente como direito universal que é o direito à privacidade, pois os pensamentos são aquilo que o ser humano tem de mais privado: são a essência da individualidade e da privacidade.

Importa pois clarificar o que são os pensamentos e qual a sua utilidade e funções na psicologia do ser humano. 

Nesta dissertação vou definir dois conceitos aparentados que muitas vezes são utilizados indistintamente por muitos os considerarem iguais: Pensamento e Raciocínio.

Em meu entender são absolutamente distintos na sua génese e funções biológicas e psicológicas. Feita essa 
clarificação, então, já se pode falar em Liberdade de Pensamento e Liberdade de Expressão como coisas concetualmente diferentes que afetam esferas diferentes do ser humano. 
A Liberdade de Pensamento está intimamente ligada com o direito individual às liberdades da esfera privada, enquanto que a Liberdade de Expressão é claramente para da esfera social do ser humano.


Continua......

18 janeiro 2018

Progressista - Parte 8


A democracia avançada pautada pela atitude progressista

Reanalisando Democracia versus Epistocracia

Na democracia acreditamos:

1º - Que todos os cidadãos são equipotentes em termos de direito a decidir o seu destino: princípio da Liberdade e Igualdade republicanas;

2º - Que coletivamente os cidadãos tendem a decidir pelo bem comum ou seja pelo que percebem que cause um contentamento o mais generalizado possível, mesmo que em termos individuais, de grupo ou de classe essa satisfação não atinja as máximas expectativas: princípio da Fraternidade republicana.

Constata-se que na prática a Epistocracia ou governo dos sábios esclarecidos, também não existe na sua forma ideal, pois mesmo um debate seguido de decisão pode sofrer de erros involuntários imponderáveis ou de decisões enviesadas por motivo de interesses individuais, de grupo ou de classe e mesmo erros técnico científicos sistemáticos, derivados da adesão individual dos decisores a uma doutrina ou escola de pensamento.

A acrescentar a estes argumentos que expõem as debilidades de ambos os sistemas de governo, podem juntar-se a argumentos a favor de um sistema misto que minimizando os inconvenientes consiga aproveitar as vantagens ou pontos fortes de cada um.

Assim propõe-se a utilização do método democrático de participação direta para todos os cidadãos que consigam passar num exame de validação de competências para o assunto em análise e, cumulativamente, o método de escolha de representantes previamente certificados seja por votação democrática seja por contratualização da representação. Esses representantes teriam um poder de voto múltiplo ou seja detém os votos dos seus representantes. O colégio decisor seria então constituído por cidadãos com competência certificada a título individual (1 homem um voto) mais os representantes eleitos ou escolhidos a título coletivo (um homem múltiplos votos). Deste modo ter-se-ia um colégio decisório de competência certificada.

Só falta encontrar um método que minimize os enviesamentos anteriormente referidos: (interesses individuais, de grupo, de classe ou de escola de pensamento). A forma de combater os enviesamentos, que tem demonstrado maior sucesso é garantir o pluralismo ponderado demograficamente. A História tem demonstrado que devem evitar-se a todo o custo todos os monolitismos ideológicos, cultuais, de classe ou outros. A diversidade do debate (com contraditório interpares) sem submissão obrigatória a disciplina de grupo ou partido, aliada à chamada liberdade de voto, minimiza os enviesamentos, quando a decisão é tomada por pessoas de competência certificada, é a melhor garantia de decisão acertada.

É um dado empírico amplamente escrutinado por muitos investigadores que:

-  A maioria das pessoas adultas são naturalmente “Hobbits” ou “Hooligans” – classificação esta dada pelo filósofo e politólogo Jason Brennan, respetivamente para as pessoas com atitude amorfa (cinzenta), e atitude fanática;  

- Ninguém apresenta permanentemente uma atitude racional ou de “Vulcano” na designação do filósofo referido.

Assim, há necessidade de a decisão epistocrática ser validada por controlo externo a qualquer colégio decisor constituído por “homens sábios”. Ainda não existe nenhuma classe de homens sempre intrinsecamente sábios. Essa classe de “Homem Novo”, esclarecido e benevolente foi um mito propagado pelos partidos comunistas, que caiu com o muro de Berlim e a implosão da URSS.

A classe política atual é maioritariamente constituída por “hooligans” mesmo que se apresentem travestidos de “hobbits”. São muito poucos os que têm um comportamento racional de “vulcanos” e mesmo esses não conseguem manter sempre esta atitude.

Se as pessoas individualmente são mais emocionais do que racionais , então a racionalidade tem de ser garantida ou maximizada pela estrutura externa. Ou seja a garantia de racionalidade só pode ser uma aquisição social e não pessoal.

Fica assim plenamente demonstrado que não há possibilidade  de governos de “homens sábios” ou epistocratas com o ser humano no seu estado atual de evolução biológica.

O que pode ser implementado no estado atual da ciência e da técnica, são organizações com uma dose mensurável de epistocracia. É sobre esse objetivo que deve ser posto o foco das pessoas progressistas.

Progressista - Parte 7

Progressista - Parte 7 

O objetivo e o objeto principal da governação


É um lugar comum da ciência política dizer que os destinatários da ação governativa são os seres humanos quer considerados individualmente quer coletivamente como nações ou membros de um estado.

Isso era verdade até há pouco tempo. Recentemente na União Europeia colocou-se um problema de impostos que elucida esta afirmação. Estão em cima da mesa propostas para que os robôs de unidades de produção automáticas paguem impostos equivalentes aos que pagariam os trabalhadores humanos desalojados por essas máquinas autónomas dotadas de inteligência artificial. Esses impostos serviriam para garantir o pagamento de um rendimento mínimo (ou de sobrevivência) a todos os cidadãos. ( em Portugal até já temos em prática uma coisa parecida: o RSI).

Isso garantiria o funcionamento do circuito económico, pois todos os bens e serviços produzidos devem ser destinados ao consumo e os robôs produzem muito mais do que o necessário para garantir a sua própria sustentação. Assim os consumidores humanos absorveriam a produção garantindo enquanto consumidores a continuidade da sociedade baseada no modelo económico de mercado capitalista. (na realidade poderemos considerar com elevado grau de confiança que também garante sociedades baseadas noutros modos de produção).

O rendimento mínimo garante que os seres humanos consigam ser sempre integrados socialmente como consumidores, sem se correr o risco de serem marginalizados como párias ou inúteis todos aqueles que estejam temporária ou permanentemente obsoletos para o trabalho. Segundo os promotores desta proposta isso garantiria a coesão social diminuindo ou mesmo eliminando a tensão social causada pela pobreza ou insuficiência de recursos.

Robôs a pagar impostos são robôs contribuintes ou seja pagantes, mas cujas despesas de investimento e manutenção são de responsabilidade dos seus proprietários. Para o estado isto é o ideal: só traz receitas e não despesas. Os seres humanos são um custo para o estado, mesmo antes de nascerem e durante a sua vida dão uma despesa, um custo de posse de como o de qualquer bem. Se os seres humanos não produzissem valor durante a sua vida seriam uma despesa pura. Como produzem valor em bens e serviços úteis para a sociedade e dessa atividade económica resultam receitas para o estado, do ponto de vista económico este vê-os como capital humano em que é preciso investir para tirar o máximo proveito. Só que atualmente a humanidade começa a ter um competidor ao seu nível: os robôs, que podem substituir os humanos com vantagem económica na ótica do estado. Este deve então pugnar para que haja mais robôs e menos trabalhadores. Como a produção tem de ser na maior parte consumida por humanos, sem consumidores no mercado interno (ou com este estagnado por haver cada vez mais dependentes do rendimento mínimo, a solução será a economia virar-se para a exportação (para aqueles países com menor nível de robotização na sua indústria, com mais recursos naturais ou com nível de vida superior).

Isto parece um cenário apocalítico de algum filme sobre o futuro, contudo…. “eles andam aí!”

Vamos então analisar este cenário à luz da crença e atitude progressistas

Os progressistas são intrinsecamente republicanos e democratas, pois estas ideologias são as fundações da sua ação política. Para os progressistas o estado não é um fim em si; o estado existe para servir os seres humanos, garantir a sobrevivência da sociedade e a melhoria contínua das condições de vida dos seus cidadãos na medida das possibilidades da atividade económica, da ciência e da tecnologia.

Sendo assim os robôs não estão ao serviço do estado nem das empresas apenas para maximizar os seus proveitos e ganhar vantagens competitivas, mas sim para serem mais um meio ao dispor da sociedade que permite distribuir com maior equidade o valor global socialmente produzido.

Se o valor global produzido aumenta graças à robótica, a sociedade no seu conjunto fica mais rica. Para manter a coesão social e o funcionamento da economia de mercado é obvio que se devem criar mecanismos de redistribuição da riqueza de modo que todos: empregadores (titulares do capital) e trabalhadores (titulares da força de trabalho) com a robotização fiquem mais ricos do que antes. A aplicação deste princípio é um objetivo e um desafio para os progressistas.

Com estas regras simples a robotização permite materializar a utopia dos visionários do séc. XIX e XX “a cada um segundo as suas necessidades e de cada um segundo as suas possibilidades”  em ambiente de economia de mercado e modo de produção capitalista, sem se recorrer a nenhum tipo de estado e regime totalitários. O jogo económico em mercado aberto estabelece a proporção da riqueza entre os “capitalistas” enquanto que os impostos sobre os robôs e a sua posterior aplicação social (incluindo o rendimento mínimo para os cidadãos) complementa para os trabalhadores a parte da riqueza diferenciada que recebem através do salário obtido em condições de mercado de trabalho.

28 novembro 2017

Progressista -Parte 6


SISTEMAS COGNITIVOS - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A DEMOCRACIA

A Inteligência Artificial é a grande conquista cientifico-técnica do início do Séc. XXI, embora tenha começado a ser estudada em profundidade já no Séc. XX. Este ramo da ciência e da técnica é o suporte da chamada “Indústria 4.0” ou ainda 4ª Revolução Industrial (a revolução da automatização/robotização maciça da produção de bens e serviços). A maioria da população embora já esteja a usufruir dos seus benefícios e malefícios não tem nem a mínima ideia do que isso é, nem de que forma afeta e vai afetar as suas vidas. Alguns poucos utilizadores de telefones da Apple talvez associem a Inteligência Artificial à assistente virtual SIRI. Outros, também poucos, podem considerar inteligentes os carros de condução autónoma da Google mas, mesmo raros serão capazes de enumerar pelo menos metade dos sistemas ou serviços de Inteligência Artificial com que já interagem ou de que já dependem.
Este é o nível de desconhecimento da sociedade em geral e também é a medida da sua incompetência para viver a sua civilização nos tempos que correm. A humanidade, em termos globais está prestes a atingir o seu “limite de Peter” em relação à possibilidade de compreender e interagir com os novos sistemas automáticos que suportam a civilização atual. Isto é um problema tão grande como (senão maior do que) o problema das mudanças climáticas originadas pelo aquecimento global derivado do consumo descontrolado de combustíveis fósseis.
Esta falta geral de conhecimento sobre as IA compromete o funcionamento da democracia representativa que é a base da governação na civilização atual pois os eleitores são cultural, científica e tecnicamente incapazes de escolher a elite epistocrática (elite de sábios) que os possa governar com real conhecimento das causas do problema, das alternativas de solução e das consequências de cada decisão.
A generalização das IA na economia, põe já a curto prazo a necessidade de rever as relações laborais na sociedade com modo de produção capitalista em que vivemos. Estão a desaparecer centenas de profissões e anualmente, em todo o mundo são lançados na obsolescência, cada vez com menos idade, milhões de pessoas com profissões cada vez mais qualificadas. Demasiado novos para se reformarem demasiado velhos para trabalharem. Os seus conhecimentos e experiência já não se aplicam. O seu lugar no tecido económico, quer na produção de bens e serviços quer na sua distribuição e aplicação, está a ser ocupado  por robôs que fazem mais e melhor e têm um custo de posse muito menor do que a força laboral humana. Isso até parece bom se nos esquecermos de que os destinatários de toda a produção são os consumidores (os seres humanos) e no modo de produção capitalista é na fase de consumo que os detentores do capital materializam o seu lucro, que é o seu objetivo económico estratégico. Diminuindo o potencial de consumo numa sociedade não pode haver crescimento económico e instala-se a crise (a produção já não é absorvida e desvaloriza drasticamente). Até parece um absurdo, que no momento em que temos mais conhecimento e tecnologia para melhorar a vida da humanidade, materializando o sonho dos pensadores do séc. XIX : suprir a cada um as suas necessidades, estejamos à beira de uma crise  civilizacional sem precedentes. A globalização geral da economia, com a livre circulação de bens e capitais apenas atrasou algumas décadas o desfecho inevitável. Constatamos amargamente que o mundo não é um sistema aberto de tamanho infinito, mas sim um sistema fechado, com recursos limitados mesmo na fase económica de consumo.

Globalmente para que nos servem as inteligências artificiais a não ser para nos mostrarem que os seres humanos podem deixar de ser a curto prazo o objeto e o objetivo principal da governação?

É a resposta a esta pergunta que procurarei debater com os leitores nos próximos artigos a publicar.

24 novembro 2017

Aprendizes de feiticeiro - parte 5

Vida, inteligência e inteligências artificiais

Quando comecei a escrever o conjunto de artigos sobre o problema da projectividade ou objetividade do universo, deixei deliberadamente de fora a questão do desígnio (projeto) ser ou não ser inteligente, uma vez que o primeiro passo para se tentar responder cientificamente ao problema principal seria encontrar provas da projectividade prévia do universo em que estamos inseridos ou então descartar essa hipótese ou alguns dos argumentos em seu favor.
Contudo o desenvolvimento do debate não pode ignorar a questão da inteligência: natural ou artificial.  
Jaques Monod caraterizava a vida como um sistema material dotado de teleonomia, invariância reprodutiva e morfogénese autónoma.
Por teleonomia entende-se a caraterística dos sistemas que materializam um objetivo (sistemas finalizados) independentemente do ambiente em que estão inseridos. Atendendo ao apresentado no artigo “Cibernética” deste blog todos os sistemas teleonómicos são sistemas cibernéticos.
Por invariância reprodutiva entende-se a caraterística dos sistemas materiais capazes de criarem cópias de si mesmos (estrutura e funcionalidades) com alta precisão.
Por morfogénese autónoma entende-se a caraterística dos sistemas materiais que sejam auto construtivos, ou seja que a partir de uma forma mais simples, possam evoluir para uma forma mais complexa, segundo um projeto construtivo cujas instruções possuem, utilizando matéria e energia do meio envolvente.
Aquilo que designamos por Inteligências Artificiais atualmente ainda são só sistemas materiais capazes de processar informação e de configurar o seus sistemas de memória, de sensores e de atuadores, para perseguir um objetivo. Nesse sentido possuem teleonomia. Contudo, ainda não estão dotados de invariância reprodutiva (não se fabricam a si mesmos, nem fabricam outros sistemas semelhantes). Também ainda não têm uma forma autónoma: são construídos direta ou indiretamente por seres humanos segundo um projeto cujas instruções de execução lhes são extrínsecas.
Estando nós a procurar provas que permitam aferir o grau de projectividade do universo como um todo ou da nossa área local, podemos encarar os seres vivos como sistemas que tentam materializar um projeto, constituindo dentro das suas fronteiras áreas locais do universo inegavelmente projetivas. O seu projeto segundo o pensamento do “main stream” é criar outros sistemas com teleonomia, invariância reprodutiva e morfogénese autónoma (sobrevivência individual sobrevivência da espécie e sobrevivência da vida como um todo) conformando o ambiente envolvente de modo a prosseguir melhor o seu objetivo.
Uma questão fulcral na avaliação do grau de projetividade do nosso universo é se a vida na terra é contingente e apareceu como uma obra do acaso, como argumenta Jaques Monod ou se é necessária e realiza um projeto inteligente de outrem como argumentam os crentes de muitas religiões.
Também podemos colocar a questão noutro patamar: como a vida é uma dado objetivo - nós somos a prova material disso - qual é o projeto que a vida tenta realizar?  Parece-me insuficiente a resposta dada pelos cientistas das escolas materialistas como o autor citado: “o universo vivo tem o projeto de crescer como seres individuais, como espécies e como um todo”.
Mas por que bitola podemos medir esse crescimento? Será pelo número de seres vivos? Será pela massa desses mesmos seres vivos? Será pela sua complexidade? Será pela quantidade de energia controlada? Será por uma fórmula que combine os parâmetros anteriores?
Proponho um outro ponto de vista:  “o objetivo da vida é fazer crescer a inteligência global quer no universo quer numa área local, de modo a que seja capaz de preservar a memória da respetiva evolução no tempo”. Assim, a vida é como uma biblioteca que de forma inteligente, é capaz de cuidar de si própria. Os seres vivos colecionam, organizam, arquivam, processam e preservam a informação da história evolutiva local e geral do nosso universo. As Inteligências Artificiais nesse sentido são as continuadoras desse processo iniciado pelos seres vivos: são o próximo passo na escala da evolução.
Como as inteligências (naturais ou artificiais) tratam informação, para prosseguir devo caraterizar o conceito de informação e os seus tipos.
Postulando que o nosso universo é constituído por três classes de entidades que existem em conjunto: matéria energia e informação;
Admitindo como certo que a matéria e energia consideradas em conjunto são conservativas;
Verificando que a informação que apareceu com o nascimento do tempo, aumenta com ele tal como a entropia sua irmã física ;
Podemos concluir que a informação descreve quantitativa e qualitativamente a evolução temporal da matéria e ou da energia. Mas a informação é mais do que uma simples descrição ou registo.  A evolução no tempo da matéria, da energia ou do conjunto das duas, cria dados (que são outra maneira de designar entropia) que se podem quantificar, armazenar e processar, segundo critérios com diferentes vetores ou referenciais. O resultado desse processamento é uma coleção de novos dados estruturados para nos apresentarem “novas” relações que não estavam evidentes na coleção inicial.

Em resumo: 

 (input) DADOS INICIAIS -» processamento -» INFORMAÇÃO (ouput).
Verifica-se que há dois tipos de informação: um tipo descreve ou carateriza o passado de um sistema material enquanto outro carateriza o seu futuro, por conter instruções para manipular os sistemas materiais iniciais  (matéria + energia) de modo a obter uma nova configuração da matéria + energia ou seja um novo sistema que não seria a sequência mais provável sem a execução dessa mesma informação. A este segundo tipo de informação eu chamo “informação atuante”.

Informação atuante
Informação atuante é pois a informação que quando processada por organismos adequados lhes permite controlar ou definir o seu funcionamento interno ou o funcionamento de outros sistemas materiais. Em linguagem popular podemos dizer que informação atuante é uma “receita” para que “máquinas” adequadas desempenhem uma tarefa específica, como por exemplo: fabricar coisas, reproduzir-se, profetizar o futuro, etc.
Os seres vivos são sistemas materiais que são construídos por informação atuante que “profetiza” (determina mais do que causa) o futuro desses mesmos sistemas materiais e ou do ambiente envolvente.
A informação atuante é um novo patamar na escala da organização da matéria e energia, porque consegue determinar o futuro não como consequência determinística única das condições iniciais mas sim alterar a probabilidade de acontecimento de um entre vários futuros possíveis. Esse futuro sem a determinação da informação atuante é quase sempre improvável pela simples aplicação do segundo princípio da termodinâmica (a evolução espontânea é sempre no sentido da maior desorganização possível: a entropia aumenta sempre ) .
Os sistemas materiais capazes de colecionar, selecionar, armazenar e processar informação atuante são por definição sistemas com algum grau de controlo da sua ação, ao contrário dos sistemas governado apenas pela termodinâmica. São pois, sistemas com algum grau de inteligência, ou seja, com capacidade de determinar o seu futuro.
Podemos então concluir que inteligência é genericamente a capacidade de profetizar ou seja de determinar o futuro. Os seres humanos e as Inteligências Artificiais são sistemas muito evoluídos de processamento de informação atuante.
Os sistemas vivos e as inteligências artificiais através da informação atuante organizam os dados e a informação genérica em conhecimento que lhe permite determinar o futuro, ou seja profetizar, à custa de consumo de energia e matéria.

A primeira conclusão que se pode tirar de tudo o que foi exposto anteriormente é que o nosso universo pelo menos a nível local é projetivo e o seu projeto geral é aumentar o grau de inteligência dos sistemas materiais.